Ser inventor autônomo não é brinquedo

O mineiro Paulo Gannam, é formado em jornalismo pela Universidade de Taubaté e especialista em dependência química pela Universidade de São Paulo. Já teve alguns trabalhos nessas áreas mas como bem diz, sua paixão é pela criação, por patentes, negociações e comercialização de produtos no mercado. Seu objetivo é patentear o máximo de produtos possíveis junto aos órgãos competentes e negociá-los com o meio empresarial, que costuma estar em busca de novas tecnologias. O legado que Gannam gostaria de deixar são as suas ideias, transformadas em produtos para o mercado. Para o portal Panorama Mercantil, o inventor afirma: “Fico abismado de ver como as empresas sediadas no exterior e seus serviços de atendimento são muito mais eficientes para receber a sua solicitação, encaminhar seu projeto ao departamento competente e lhe dar um retorno normalmente detalhado sobre o porquê de haver ou não interesse pelo seu produto. Eles são bem mais profissionais, atenciosos e organizados do que nós, o que revela a falta de interesse, falta de organização, de preocupação e o comodismo de algumas empresas brasileiras”.

 

Paulo, antes de mais nada, nos fale um pouco de você e de sua carreira.

A primeira coisa que veio à cabeça a meu respeito é a dificuldade de me concentrar quando isto é mandatório. Dificilmente, consigo ficar focado numa certa atividade ou conversa com outra pessoa, salvo se ela despertar muito, mas muito mesmo, meu interesse. Isto gera uma luta diária no lado profissional e nos relacionamentos, para estar realmente presente na vida e entender o que os outros estão falando comigo, sem ficar “viajando”. Não se trata de negligência, egoísmo imaturo, e não é algo que com o simples esforço pessoal resulte em melhoras significativas. Fiz várias tentativas, sem êxito. Cheguei a pensar que eu era “burro” mesmo, talvez “hiperativo”, pois sempre demorei mais do que a média para aprender e para memorizar coisas. Mas acabei concluindo não ser o caso.

Tenho certa facilidade para escrever e muita dificuldade para falar em público. Também tenho certeza de que sou portador de uma doença não catalogada pela medicina. Períodos, mesmo que médios, de leitura, vão me gerando progressivamente enjoo, cólicas, mal estar, dor de cabeça, e, se eu persistir, até calafrios e febre, e é preciso que eu esteja longe dos livros por alguns dias até que estes sintomas remitam plenamente. Já devo ter feito uns 10 tipos de tratamentos e nada. Aceitei, concluí que ninguém descreveu ainda esta doença. Só que isto atrapalhou minha vida desde pequeno, pois minha concentração sempre foi prejudicada por conta desses desconfortos físicos, somados aos pensamentos evasivos.

Quanto à carreira, sou formado em jornalismo pela Universidade de Taubaté e especialista em dependência química pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Já tive alguns trabalhos nessas áreas (assessoria de imprensa, auxiliar em centro de recuperação de dependentes químicos e depois supervisor de Censo pelo IBGE), mas o que nos últimos 3 anos realmente tem me dado prazer profissional e nenhum prazer financeiro (até agora) é a criação, solicitação da patente, negociação e busca pela comercialização de produtos no mercado através de parcerias com empresas já estabelecidas. Hoje 70% do meu trabalho é focado na criação e desenvolvimento de novos produtos e sua apresentação a empresas. Nos 30% restantes atuo com administração imobiliária.

 

Antes de entrarmos na área das invenções, eu gostaria de saber como é sua experiência no trabalho com dependentes químicos e qual a opinião que você tem sobre a liberação das drogas, sobretudo da maconha que anda em voga no país.

Esta pergunta é muito boa, mas mereceria um livro, de vários volumes! Tentando resumir: Tive experiência empírica e científica. O que tenho a dizer é que a ciência, apesar de alguns avanços, está de joelhos diante da dependência química e das dependências comportamentais (dependência sexual, de jogo, por comida, codependência, etc), que também são dependências químicas, só que endógenas (por substâncias produzidas pelo próprio organismo). Embora muitos dos profissionais que atuem nesse ramo tenham dificuldade de admitir isso, os resultados dos tratamentos são pífios e dependem muito mais da motivação e boa vontade dos portadores da doença para a mudança do que do próprio esforço dos profissionais. E o sucesso do tratamento depende muito da família do dependente! Estamos falando de uma doença que não é contagiosa, mas é contagiante. A cada dependente químico na família você pode somar, em média, mais 4 pessoas com perturbações emocionais, em função do dependente. Familiares nessa condição não ajudam, só atrapalham a recuperação do dependente. Tornam-se facilitadores permissivos, e privam o dependente das consequências de seus atos. Ninguém se recupera assim.

Os profissionais são como guias/mentores amorosos e firmes, mas não têm o poder de interferir nos resultados se o doente não seguir as orientações. O dependente tem de estabelecer metas e criar novos hábitos. E o crucial, estar disposto a pagar um preço (dor emocional) para que sua mente volte a ter um funcionamento semelhante ao de pessoas que nunca se tornaram dependentes (o que pode levar, em média, de 3 a 10 anos passados em abstinência, dependendo do nível de comprometimento e histórico do paciente). Como o cérebro e as substâncias que por ele transitam estão apenas começando a ser mais bem compreendidas, e os mecanismos genéticos e ambientais que contribuem para a aparição da doença ainda estão sendo destrinchados, não há tratamento milagroso. A psiquiatria oferece alguns medicamentos que atuam sobre a mente, mas não em vez da mente. Eles não regeneram certas conexões perdidas, tampouco substituem outras conexões/associações ruins que foram construídas na dependência. Então, em muitos casos que já pude observar, o sujeito fica chapado de remédio e não tem nem força para usar drogas ilegais ou álcool. Mas ele está usando drogas legais receitadas, é a única diferença.

Oferecer isso como tratamento para o ser humano é muito pouco, é uma baita falta de recurso, falta de conhecimento e comodismo de profissionais para os quais é mais fácil medicar a pessoa do que fazer um treinamento para lidar com o dependente e com os mecanismos de negação (o que demanda muito mais empenho, maturidade, aprendizado, raciocínio e empatia do profissional). Merecemos algo melhor, mas hoje é o que, em parte, a psiquiatria/medicina convencional oferece. Não estou dizendo que não haja casos em que seja necessário e fundamental o uso de certos medicamentos, mas o alerta que faço é da prescrição em demasia para o tratamento de uma doença muito mais complexa (por ser multifatorial) do que a mera reposição de um neurotransmissor como a serotonina, dopamina, etc.

Muitos tratamentos são feitos a partir de estudos e inferências superficiais. Por exemplo, mede-se o nível de serotonina no sangue do usuário de drogas crônico e vê que ele está baixo, então, manda serotonina goela abaixo nele (Paroxetina, Fluoxetina, etc) para ver se melhora. Trata-se de tremenda incompreensão, pois o déficit de serotonina é só a ponta do iceberg. O indivíduo pode ter tido todo um ambiente desfavorável na infância que moldou sua personalidade ao ponto de ele ter esse déficit. Então ele precisa se conhecer, falar sobre seus sentimentos, e traçar metas de mudança de comportamento para que seus pensamentos e emoções possam mudar. Muitos que usam os medicamentos não irão amadurecer, entrar em contato com traumas de infância. Só que quando o medicamento for retirado, os problemas emocionais voltarão e a possibilidade de uma recaída brusca idem. Mas prefiro repetir: há casos nos quais medicamentos são imprescindíveis.

A dependência química, na maior parte das pessoas, é crônica, progressiva e de desenlaces fatais, caso não seja estacionada. Uma vez dependente, sempre dependente, como na diabete. Mesmo sem consumir açúcar você continua sendo diabético. Isto é comum se dizer, pois a partir do momento em que se torna dependente, ocorre um processo de neuroadaptação, criando uma memória do prazer que a droga proporcionou nas primeiras experimentações e a estrutura mental da pessoa tende a ser alterada pelo resto da vida.O melhor tratamento é aquele em que o profissional desenvolva muito sua empatia, experiência, conhecimento e treinamento necessários para reverter o quadro de negação característico da doença. A maioria dos médicos e psicólogos não tem o menor entendimento da doença, salvo se se especializarem e se prepararem emocionalmente para tratar de um dependente. Basta olhar na grade curricular dos cursos de graduação da área da saúde, mal se fala disso, no máximo 4 horas abordando o assunto.

Quanto à liberação das drogas, em especial da maconha na forma fumada por usuários, só posso dizer que somos muito bons em dar um passo para frente e quatro para trás. Conseguimos criar várias restrições com o uso do tabaco, sabidamente conhecido pelos seus malefícios, gerando bons resultados na saúde pública. Mas temos a capacidade de discutir a possibilidade de liberação de uma substância que traz prejuízos iguais ou piores ao indivíduo. Há mitos como o de que “A maconha faz menos mal do que o tabaco”: Maconha irrita os pulmões, estimula os músculos cardíacos, dilata as pupilas, aumenta a pressão arterial, causa câncer de pulmão, dependência, síndrome amotivacional (pessoa não quer fazer nada, não tem objetivos, o lado profissional vai para o espaço). Também causa piora/aparecimento de doenças pulmonares obstrutivas crônicas, náusea crônica… Outro mito: “A maconha não é porta de entrada para outras drogas”. O que a ciência já comprovou: A possibilidade de galgar para o uso de cocaína é aumentada em 85% nos jovens que usaram maconha entre 12 e 17 anos de idade. Mais ainda: 60% dos adolescentes que usam maconha antes dos 15 anos vão usar cocaína.

O uso da maconha favorece o contato dos jovens com pessoas que usam e vendem não somente a maconha, mas também outras drogas. Com a liberação o acesso fica mais fácil, banalizado, sem o componente da ilegalidade que limita alguns jovens de experimentarem e estarem sujeitos ao desenvolvimento da dependência. Está se reduzindo o peso moral de se experimentar ou permanecer fumando a droga. Outro aspecto polêmico é o de se classificar drogas em “leves” (álcool, tabaco, maconha) e pesadas (cocaína, crack, etc). É preciso relativizar, pois para uma pessoa que desenvolve a dependência química, a sua droga de consumo é seu maior problema!

Se a maconha for liberada, no Brasil, especialmente, teremos aumento no número de acidentes de veículos, pois maconha fumada prejudica a percepção do tempo e do espaço, limita visão central e periférica para detectar sinais. Veremos muitas pessoas não enxergarem motoristas que pretendem ultrapassá-las ao lado, gente avançando em sinal vermelho, parando em sinal verde, não reconhecendo sinal característico de contramão e assim por diante. Também veremos aumento progressivo de mão-de-obra sem qualificação, pronta para ocupar apenas cargos que demandem baixo nível de raciocínio, menores responsabilidades, etc. Eu não tenho nada contra esses cargos, mas quando uma droga impede uma pessoa de se desenvolver profissionalmente e limita suas expectativas e sonhos de vida, não há como estar a favor disso.

Outro aspecto, para finalizar, sem esgotar: há evidencias suficientes de que a maconha produz em alguns usuários psicoses agudas, incluindo confusão mental, perda da memória recente, delírios e alucinações, podendo ainda precipitar o aparecimento de um quadro de esquizofrenia, mesmo em quem não tenha histórico familiar da doença. Ou seja, tem gente que nas primeiras vezes em que usar está sujeito ao desenvolvimento de esquizofrenia. Esta é a “droga natural” que tantos gostam de apregoar. Eu digo o seguinte: veneno de cobra também é natural, relâmpago na cabeça também é natural, e daí? É isso que a sociedade deseja para as próximas gerações? Ao invés de fortalecermos as instituições de segurança e de combate ao crime e ao narcotráfico usando as novas tecnologias, admitimos nossa suposta impotência e incompetência do Estado para resolver o problema e legalizamos um veneno. Mas que fique claro: estou falando da maconha fumada e não da substância/princípio ativo extraído/isolado da erva para fins medicinais excepcionalíssimos, quando outros medicamentos disponíveis para o tratamento de certas doenças falharem.

 

A sua capacidade de inventar surgiu em 2005, como foi que isso se sucedeu?

Exato, mas foi um processo. Àquela época, estava no terceiro ano de jornalismo. Tinha um blog e redigia artigos sobre os mais variados temas. Certa vez, postei um artigo intitulado “Obra-prima de borracha”, que destacava os benefícios de se trazer a galocha de volta ao mercado, dando-lhe novas feições e design, pelo benefício em evitar que nossos pés e calçados se molhassem durante as chuvas. Essa ideia surgiu depois de eu ter sido apresentado à galocha por um tio, o Toninho Gannam, que a trouxe de seu sítio. Estava bem acabada, mas trazendo benefícios que eu sempre achei que nossos calçados deveriam voltar a agregar. Creio que ali estava começando a nascer este verve inventivo. Anos mais tarde, sem exercer a profissão jornalística, o que eu mais fazia era tomar açaí na tigela nas horas vagas.

Tornei-me religioso apreciador do produto e passei a diferenciar os melhores dos piores açaís na tigela com grande perspicácia. Resolvi passar a fazer açaí na tigela em casa e fiquei mais ou menos um ano e meio aprimorando o produto e usando meus familiares de cobaias. Quis montar um negócio de açaí com base naquele creme que eu tinha conseguido fazer em casa com uma consistência dos deuses. Mas percebi que poderia agilizar o processo criando uma máquina que fizesse aquele creme sem exigir tanta destreza manual. Passei quase um ano com um técnico, tentando construir a máquina, mas o máximo que conseguimos foi sucessivas explosões da engenhoca. Assim, precisei abandonar a ideia, pois não tinha mais dinheiro para investir. Contudo, o benefício foi que, buscar alternativas para a criação e para o sistema desta máquina, com a simples imaginação, despertou muito minha mente para a sensibilidade inventiva. A partir de então, a “porteira se abriu” e não parei mais de ter ideias.

 

Você já tem 4 invenções que estão prontas para o processo de patentes, fale se possível de uma forma resumida, sobre cada uma delas.

Na verdade eu já pedi pelos direito de patente delas e já posso falar sobre elas abertamente, pois já saíram da fase confidencial. Para saber mais sobre elas é só entrar num site de busca que aparecem várias referências, como vídeos e releases sobre elas:

Sistema de Cooperação no Trânsito: É um aparelhinho eletrônico de comunicação instantânea que alerta, com frases curtas e objetivas, qualquer problema/situação identificável em um veículo ou nas estradas. A comunicação é feita pelos usuários de outro veículo que também disponha do aparelho e não depende de internet, cujo sinal é ruim em certos locais. Alguns exemplos de mensagens: luz de freio queimada, pneu murcho, luz de ré queimada, emergência, pessoa doente no carro, acidente/animal/deslizamento à frente, incêndios, chuva forte, etc. Também permitirá a comunicação entre órgãos de Governo e motoristas, campanhas de educação no trânsito, enfim, uma integração da comunicação, criando um clima amistoso e de espírito de ajuda pelo condicionamento.

Sensor lateral para proteger rodas e pneus junto ao meio-fio: um sensor que avisa o momento em que o condutor estiver próximo de encostar o pneu ou roda junto ao meio-fio, em qualquer tipo de movimento [com ou sem uso de marcha-ré]. Esse é uma “mão na roda”. Muito mais simples e barato que projetos complexos e caríssimos como o Park Assist e o Intellisafe. E atende a uma necessidade de modo mais completo, se comparado com retrovisores automáticos de ré.

Protetor de unhas para portadores de onicofagia (hábito de roer as unhas): É uma película que reveste as unhas do usuário de forma elegante e discreta, sem causar desconforto algum, pois cobre apenas as unhas sem incomodar o tato, e pode ser usada por homens e mulheres. Cerca de 19% a 45% da população, oscilando de acordo com a faixa etária, tem este hábito. Lixa para unhas três em uma: uma invenção concebida muito mais por minha cunhada do que por mim, ao observar os tipos de lixa disponíveis no mercado: Trata-se de um produto inédito no mercado, cuja extremidade é arredondada e fina. Suas funções consistem em uma parte para dar brilho e outra para lixar a superfície das unhas. Entre as pontas, no cabo dessa lixa, há uma superfície circular para lixar o contorno da unha com diversos graus de aspereza — espessura em sua circunferência, conforme preferência do usuário. Ela tem um formato anatômico que impede esfoliações na pele logo ao lado da cutícula.

Já tenho o protótipo físico do aparelho comunicador (pmv), e prova de conceito do sensor para rodas, feita recentemente em PIC e Arduino. Espero em algumas semanas já estar fazendo testes com o protetor de unhas.

 

Quais as principais dificuldades de ser um inventor no Brasil?

1- Não existe nenhum programa que apoie, no sentido exato desta palavra, o inventor independente, pessoa física, com recursos para que ele possa realizar um estudo de viabilidade técnica e econômica de seu projeto e desenvolvimento de um protótipo físico. O pessoal vive falando, “mas tem o Sebraetec, o Finep, a Fapemig”, etc. Na maioria das vezes, os programas de apoio são voltados apenas para empresas, pessoas jurídicas com CNPJ, como se o foco devesse estar em empresas e não na inovação e qualidade do projeto de que se está falando, que pode ajudar as pessoas e movimentar muito dinheiro. E quando algumas dessas instituições chegam a “apoiar” o inventor independente, se você sondar direito o programa, ele não se trata de apoio coisa nenhuma, e sim de um negócio como outro qualquer – e dos piores para o inventor. Exemplo: há fundações de amparo que, se julgarem sua invenção com bom potencial de mercado, arcam com os custos de depósito do pedido de patente e pela administração da sua patente, pagando pelas anuidades que hoje estão em torno de R$ 80,00 a R$ 100,00 ao ano, até que a carta-patente seja concedida (depois que a carta-patente é concedida as anuidades aumentam progressivamente a cada ano). Em troca de pagar por essas taxas de serviços impostas pelo INPI, fundações de amparo requisitam a cotitularidade da patente e direitos de participação comercial sobre a mesma. Ou seja, eles investem uma mixaria no seu projeto pagando por essas taxas, normalmente não te ajudam a divulgá-lo nem a mediá-lo numa eventual negociação; não te ajudam a desenvolver o protótipo nem a fazer um estudo de viabilidade comercial, e não têm nenhuma participação na concepção da ideia. Mas se seu invento milagrosamente gerar royalties pesados graças aos seus heroicos esforços, eles ficam com uma boa fatia do bolo.

Não consigo entender aonde a palavra “apoio” se encaixa nessa tratativa. Penso que quando você dá apoio à pessoa, não está fazendo negócios com ela. Quando você apoia uma pessoa idosa para que ela atravesse a rua, protegendo-a de possíveis acidentes, você está fazendo algo incondicionalmente por estar lidando com uma pessoa com limitações e dificuldades. Você está gratuitamente ajudando uma pessoa mais do que as outras porque ela precisa desse apoio adicional. Imagine você cobrando desproporcionalmente no futuro algo dessa pessoa pelo fato de tê-la “apoiado”. A analogia não é perfeita, mas se enquadra o bastante no caso. De acordo com a Organização Mundial de Propriedade Intelectual: Mais de 60 % de tudo o que foi inventado ou aperfeiçoado no mundo até hoje foi a partir de inventores autônomos. Outra estimativa aponta que menos de 3% de tudo o que é inventado no mundo consegue chegar ao mercado. No Brasil, não há a preocupação com uma boa ideia vinda de anônimos, pessoas físicas. Se você não está conveniado a um centro de pesquisa, universidade ou pessoa jurídica, não receberá um centavo do Governo e terá de trilhar um caminho solitário, pedregoso e quase sempre demorado até encontrar – se encontrar – um parceiro para seu projeto.

Às vezes você gasta anos com um projeto, e graças à falta de apoio para fazer com que você entenda se sua ideia é boa ou não, você fica na dependência de uma empresa que veja potencial em sua ideia e use capital de risco para validá-la. Conheço inventores de idade avançada que comentam terem perdido anos de sua vida, em função disso, pela falta de apoio financeiro para fazer um estudo comercial que confirmasse o potencial do produto ou que fizesse eles pivotarem, partirem para outro projeto ou mesmo para outra profissão. A frustração é muito grande e difícil de digerir nesses casos. A impressão é a de que você perdeu a sua vida iludido com um sonho e, de repente, tudo passou, você ficou velho e já está na hora de morrer. É muito triste isso e precisa mudar.

2 – O empresário brasileiro tem perfil mais conservador, gosta de retorno a curto e no máximo médio prazo e está com pouco capital de risco para investir. Uma nova ideia requer investimento em maquinário, desenvolvimento de modelos do produto, planejamento de marketing, e isso tudo faz a empresa sair do roteiro que estava planejado, podendo levar alguns anos até que de fato o produto seja lançado no mercado e traga o retorno desejado.

3 – Há empresas cuja política não admite a entrada de ideias vindas de fora por já possuírem departamentos fechados de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. O raciocínio do empresário é: “eu já pago para um empregado meu pesquisar e criar coisas novas, eu não vou “nem a pau” dividir meus lucros com um cara (inventor) que nunca vi na vida, mesmo que tenha criado uma coisa boa”. É compreensível o raciocínio, mas talvez uma ideia externa possa trazer melhores resultados que uma interna, pode fazer com que uma empresa cresça, expanda seus negócios, e enxugue seus próprios custos em manter um departamento de P&D. Por outro lado, há empresas que já se adaptaram à chamada Open Innovation, que é a possibilidade de a empresa trazer inovação e aumentar seus lucros com base em ideias oriundas de fora, aceitando que no mundo tem muitas cabeças pensantes e que ideias surgem a todo momento dentro ou fora dessas organizações.

 

O empresário brasileiro tem um perfil conservador, isso é um fato. Como você acredita que deveria ser implementada a cultura do capital de risco (quase inexistente em comparação a outra nações), para que inventores pudessem ter as suas ideias produzidas em larga escala?

Eu não vejo outra forma de mudar esta condição a não ser pelas próprias mãos de inventores e empreendedores. Eles precisam se profissionalizar, pois, por enquanto, não tem ninguém que irá ajudá-los. Se um inventor leva dados plausíveis de que seu projeto é viável, o mais conservador dos empresários pode lhe dar uma chance. Há uma fatia de empresários irrecuperáveis, é verdade, eles só querem ficar guardando o dinheiro que já ganham e não querem investir em mais nada. Atingiram patamar que lhe é satisfatório e ponto. Não querem ou nem tem tempo ou saco de ouvir mais nada. Acho que a cultura do capital de risco só pode ser implementada se ela de fato for comprovadamente eficaz em termos de retorno. Penso ser necessário mostrar ao empresário, estatisticamente, que empresas que possuem capital de risco para investir em novos produtos/negócios tendem a crescer mais do que as que não têm. Não conheço dados nesse sentido, mas se eles não existirem, não vejo razão para que o empresário faça isso. Mas de uma coisa eu sei: hoje inovar não é opção, é obrigação da empresa se ela pretende manter um negócio de longo prazo, sustentável.

Penso ainda que aumentar a cultura do capital de risco não é garantia de que ideias de inventores sejam levadas ao mercado. Se a ideia não for viável, não há capital de risco que consiga operar milagres. Mas, quando a ideia do inventor for viável, é muito barato um empresário fazer parceria com um inventor, principalmente se levarmos em conta a originalidade do projeto e exclusividade de produção e comercialização. E sem concorrência, se o projeto estiver blindado com a patente. Patente não salva ninguém de cópias, mas é uma boa forma de intimidar. Se não adiantasse nada, empresas não patenteariam seus produtos.

Primeiro Protótipo

Criações: Gannam mostra o seu primeiro protótipo físico do aparelho comunicador (pmv). Para o inventor, uma fatia da mídia só quer contar casos de startups que deram certo (Foto: Arquivo/Paulo Gannam)

 

Quando começamos um projeto, geralmente sempre têm aqueles que querem nos desanimar, e quase sempre são os mais próximos a nós que fazem esse papel nada agradável. Alguma pessoa querida, já chegou a dizer que tudo que você estava criando era uma loucura?

Minha família é composta, sobretudo, de profissionais liberais, funcionários públicos, e comerciantes. Portanto, começar a criar coisas, embora tenha despertado curiosidade inicial por parte deles, não gerou muito entusiasmo quanto à possibilidade de se ganhar dinheiro com isso. De fato, é um ramo que requer muita perseverança, flexibilidade, e uma boa dose de sorte. Mas meu pai, apesar de perfil mais conservador, creio ter sido o que me incentivou e apoiou, sobretudo na crença de que alguns desses projetos ainda vão sair do papel, cabendo a mim não criar expectativas, e ir trabalhando, sempre, e contatando empresas, sempre, deixando que os resultados venham ou não sem ficar sofrendo com isso. Tenho posto em mente que o que vale é a jornada e não a chegada, isso me ajuda a continuar e estar sempre aprimorando e alterando meus produtos se necessário para se adequarem ao mercado. De vez em quando cansa e traz desconforto tanta incerteza. Mas é a vida pela qual estou optando no momento.

Inveja, incompreensão e desconhecimento técnico do assunto levam algumas pessoas a serem amantes da crítica, quando diante de uma nova ideia. E, seja inventor autônomo, pessoa física, seja um empreendedor que está rumando à constituição de uma startup, é preciso ter faro para identificar quando é isso ou quando é outra coisa bem melhor: às vezes as pessoas metem o bedelho na sua ideia, mas é para ajudar, e você precisa ter os ouvidos bem abertos, sem ser rabugento e paranoico.

 

Em algum momento, você já pensou em ir para países com um maior Know-how e apetite pelo risco como, por exemplo, os EUA, para vender uma ideia?

Não me lembro de ter pensado nisso, porque mantenho atividades profissionais no Brasil que me dão a condição de manter minha vida andando. O que eu consigo fazer é estabelecer contato com empresas no exterior pela internet. Fico abismado de ver como as empresas sediadas no exterior e seus serviços de atendimento são muito mais eficientes para receber a sua solicitação, encaminhar seu projeto ao departamento competente e lhe dar um retorno normalmente detalhado sobre o porquê de haver ou não interesse pelo seu produto. Eles são bem mais profissionais, atenciosos e organizados do que nós, o que revela a falta de interesse, falta de organização, de preocupação e o comodismo de algumas empresas brasileiras.

Há outro aspecto que deve ser levado em conta quando uma pessoa possui uma ideia e a quer levar ao exterior: ou ela confia muito nas pessoas com as quais irá entrar em contato lá fora, ou ela assume o risco de ter sua ideia copiada. Tem mais: quem solicita patente apenas no Brasil e não internacionaliza sua patente não tem direitos de explorá-la com exclusividade no exterior. Daí vem mais barreiras, pois os custos de se patentear em cada um dos países lá fora são altíssimos, ainda mais para um inventor autônomo. Este é um tremendo entrave à inovação, não apenas no Brasil, mas no mundo. Você é depenado ($) por estar tentando ser inovador. Você está fazendo um favor ao Estado por estar criando algo que pode ajudar as pessoas, criar emprego, movimentar a economia, e paga por isso ao Estado….

 

O tratamento dado de um modo geral pela mídia aos inventores como você tem sido satisfatório, ou também vê dificuldades nesse ponto?

Há uma fatia da mídia que age como o mercado age. Ela só quer contar casos de sucesso, casos de startups que deram certo, que foram vendidas ou que cresceram. Acho estranho isso. Eu já me apresentei há alguns veículos de comunicação de grande porte e obtive mais ou menos isto como resposta: “Paulo, nosso foco é em matéria de casos de sucesso, em startups e produtos que deram certo. Você já tem algum produto no mercado? Onde está vendendo?”. É muito esquisito, pois o cara que deu certo merece sim a atenção da mídia, ele tem mérito, mas ele não precisa dessa atenção. Quem está precisando, quem está buscando apresentar seu trabalho e seu talento ainda não reconhecido são os anônimos que criam coisas, as desenvolvem, protegem sua patente e estão na luta por algum sucesso. Nesse sentido, eles precisam muito mais da ajuda da mídia do que os casos de sucesso. Só que dentro dos critérios de noticiabilidade parece ser mais consumível uma notícia que fale de algo de sucesso do que a história de alguém que está na luta, mas que ainda não conseguiu nada social e economicamente louvável.

Mas há o outro lado, eu conheci jornalistas e empresas de comunicação realmente solidários com a causa de inventores independentes. Que buscam com prazer realizar matérias ligadas ao assunto e apontar as revoltantes lacunas na Lei de “Inovação” e em outros códigos. Mas, de um modo geral, estou bastante satisfeito. Só deixo um alerta para os inventores: não basta você sentar no sofá e achar que o mundo irá ficar atrás de você para falar das suas invenções. Inventor também precisa aprender a ser marqueteiro de seu trabalho. Se não tiver grana, não precisa contratar assessoria de imprensa nem agência de publicidade, é só sentar na frente do computador, acessar a internet e pôr a mão na massa! Os resultados demoram, mas vêm, só que depois de muito trabalho.

 

Você tem 800 ideias cruas. Como alguém que queira conhecer e talvez investir em alguma delas pode ter acesso?

As cerca de 800 ideias que tenho estocadas ainda não foram bem descritas, desenvolvidas nem, se oportuno, patenteadas. O investidor poderá ter acesso a elas mediante assinatura de um termo de confidencialidade, no qual se garante que as ideias que serão trocadas entre as partes ficarão ali mesmo, conferindo segurança e sigilo ao bate papo. É um modelo quase impossível de acontecer hoje, pois o investidor não quer problema, não quer ideia crua, quer solução. Você tem que estar com tudo pronto para apresentar o projeto nos moldes que ele deseja, ou seja, com o projeto blindado com a patente, com um protótipo físico fresquinho e, preferencialmente, estudos de viabilidade econômica e pesquisa de mercado que validem a ideia proposta.

Você imagine o que isso significa para uma pessoa simples, sem formação na área, que teve uma ideia excelente de um novo produto /serviço. Só que ela não tem a menor condição de alavancar o projeto, e vem um investidor e pede para ela todos estes itens. Ela vai ficar “babando”, sem saber o que fazer, e falar “mas hein?”. Por isso insisto na questão do descaso dos governos das diversas esferas e na necessidade de a lei ser alterada urgentemente em nosso favor.

Mas supondo que um investidor bem “maluco-mente-aberta” goste de alguma ideia, um conceito proposto, após assinatura do NDA.

Para os inventos que já estão com patente requerida no INPI, o meu objetivo é o licenciamento. Não pretendo constituir startup, não dá tempo! É muito projeto na cabeça e trabalho praticamente sozinho. O licenciamento dá ao fabricante exclusividade em seu ramo de atuação, maior valor agregado, livre de concorrência, valorização do patrimônio intangível de sua empresa e até 20 anos de direito de exploração industrial/comercial do produto. Quanto às demais 800 ideias cruas, o que tenho a dizer é: eu sou inventor, e o que vem à minha mente é aleatório, não tem crivo, o único crivo é uma aparente necessidade identificada para a qual ainda não foi criado produto específico. Mas isso hoje está longe de ser o bastante. A cultura predominante, sobretudo no ramo de administração e empreendedorismo, ainda que com a qual eu não concorde totalmente, é: Uma grande ideia não é de quem a tem, mas principalmente, de quem consegue colocá-la em prática. Muitas e muitas ideias já foram pensadas, mas o porquê ninguém deu continuidade é o X da questão! Infelizmente, a maioria de instituições públicas e privadas de algum modo relacionadas a inventores autônomos só sabem onerá-lo, mas não o alertam para as dificuldades do mercado. Com eu já disse, muito inventores autônomos não tem formação na área de administração, sequer tiveram contato com literaturas sobre empreendedorismo. Eles têm uma ideia, protegem-na via patente, mas não tem o menor alcance para saber se sua ideia é realmente viável técnica e economicamente. E para se chegar a essa conclusão, haja pesquisa e contato com possíveis clientes, modificações e adaptações no projeto até se chegar, quem sabe, ao produto final.

Ter uma mera patente de uma ideia hoje, em certos casos, só serve para algo de grande tecnologia, do contrário pode ser jogar dinheiro fora!

Temos leis muito ruins para inventores, fiscalizações ineficazes e outros países agressivos comercialmente e muito mais competentes em produção industrial do que o Brasil. É comum inventores autônomos e empreendedores “quase se matarem” para criar um produto e assistir a alguém de fora produzir zilhões de peças a um custo baixíssimo, invadir o mercado, saturá-lo e depois desaparecer do mapa! E aí o inventor/empreendedor vai processar quem? Quem foi que vendeu? Vai ter dinheiro para disputar uma contenda judicial cara contra empresa que tem ativos de milhões/bilhões? Leia-se o caso do brasileiro que inventou o bina.

Todas as ideias conceituais que partem de uma teoria ou conceito levam muito tempo para serem aplicadas. A maioria é engavetada pela necessidade de estudos, impactos, laudos sobre resultados e mais um monte de variáveis que demandam investimento pesado! Os inventores precisam saber disso para se profissionalizar, se não vão gastar toda uma vida, dinheiro e esforços num sonho que não irá se realizar. A regra é que a coisa tem que estar andando, já existindo para ser vendida. Eu sugiro aos inventores, antes de conversar ou pagar alguém para fazer uma patente ou qualquer outro tipo de estudo, que deem uma estudada nos conceitos de “Startup Enxuta”, “Inovação de Valor” e “Modelo de negócio”.

Para finalizar, uma provocação: se Thomas Edison e Nikola Tesla fossem brasileiros, poderíamos estar ainda no escuro?

Acho que não tenho alcance para responder a contento a esta pergunta, mas penso que essas pessoas de inteligência e talento notáveis fizeram história e tiveram mais sucesso econômico (sobretudo T. Edson) não somente pelo local possivelmente mais propício para criar, desenvolver e comercializar suas invenções. Elas conseguiram reunir habilidades que poucas pessoas têm sozinhas: eram seres ao mesmo tempo muito racionais e com uma imaginação sem limites. Tinham ainda o que chamamos hoje de visão empreendedora, pensamento visual, estavam longe das convenções, tinham alto conhecimento técnico para desenvolvimento de algumas de suas próprias ideias, e coragem para perseverar naquilo que estavam fazendo. Davam sentido à própria vida por meio da criação. Eu arriscaria dizer que não, não estaríamos no escuro.

http://www.panoramamercantil.com.br/ser-inventor-autonomo-nao-e-brinquedo-paulo-gannam-jornalista-especialista-em-dependencia-quimica-e-inventor/