Quando uma marca valiosa decide encolher de tamanho

Na era digital, a velha máxima “dividir para governar” parece ter encontrado um significado completamente diferente do original. Em vez de uma recomendação política para manter os adversários isolados, e assim dominar o poder sem muita resistência, a frase resume uma tendência crescente entre as grandes empresas de tecnologia: a de se desmembrar em vários pedaços.
O exemplo mais recente vem da Hewlett-Packard (HP), que planeja se separar em duas empresas independentes: uma de computadores pessoais e impressão e outra de equipamentos e serviços para empresas.
A decisão tem um caráter simbólico por se tratar da HP. A companhia, criada em 1939 por Bill Hewlett e David Packard, é reverenciada como a ‘avó’ do Vale do Silício. A garagem onde os dois amigos criaram o negócio, com um investimento de US$ 538, é preservado como um monumento ao modelo de inovação tecnológica forjado na Califórnia. A cultura da garagem – grandes negócios que começaram na casa dos pais de jovens inquietos – começou com a HP.
Não é só isso. Durante muito tempo era comum comparar a HP com a IBM. Em ambas a atuação se estendia de computadores usados em casa até equipamentos e serviços destinados a outras empresas. Em 2005, depois de um processo gradativo de retirada da área de consumo, a IBM cometeu o que parecia um sacrilégio: vendeu sua divisão de PCs para a chinesa Lenovo para se concentrar na área de serviços empresariais.
A mudança de rota automaticamente estabeleceu dois padrões: de um lado a IBM, com operações concentradas em menos áreas, não expostas ao consumidor, mas potencialmente mais lucrativas. De outro, a HP, cuja resistência à ideia de abrir mão de quaisquer de seus negócios era vista como uma clara mensagem de que era possível, sim, fazer bem muitas coisas diferentes. Foi essa posição que Meg Whitman, diretora-presidente da HP, defendeu desde que assumiu o comando, em setembro de 2011. “Não vamos vender nada”, disse a executiva – uma das mais influentes no mundo da tecnologia – em entrevista ao Valor, em abril do ano passado.
O dilema de reduzir ou não o campo de atuação não é exclusivo das empresas de tecnologia. A web estabeleceu uma rede de conexões entre diversas áreas que antes pareciam estanques. Isso fez com que empresas de muitos setores – mídia, telecomunicações, entretenimento, produtos eletrônicos e serviços da própria internet – se movessem para negócios muitos distantes de suas áreas originais, na expectativa de capturar o próximo grande momento de expansão digital. Afinal, tudo parecia estar ligado. Nesse processo, as aquisições tornaram-se comuns.
O resultado foi a criação de grupos com culturas empresariais diversas e negócios com ritmos de crescimento muito diferentes entre si. Para os mais críticos, isso significa empresas quase impossíveis de administrar. Daí muitos acionistas passarem a pressionar para que suas companhias cortassem a própria carne.
Na semana passada, o eBay, de vendas on-line, anunciou que vai desmembrar o PayPal, de pagamentos eletrônicos, transformando o serviço em uma empresa autônoma no ano que vem. O anúncio foi mais um passo para reverter a estratégia anterior, de ir além do comércio eletrônico. Em 2011, o eBay já havia emancipado o Skype, de comunicação on-line. A empresa foi comprada mais tarde pela Microsoft.
O grupo francês Vivendi também decidiu encolher. Só neste ano, o conglomerado vendeu as operadoras de telecomunicações SFR, da França, e Maroc Telecom, da África, além da Activision Blizzard, de videogames. O passo mais recente, no mês passado, foi o acordo para vender a brasileira GVT para o grupo espanhol Telefónica. A meta da Vivendi é voltar suas forças para as áreas de mídia e entretenimento, nas quais detém a gravadora Universal Music e o Canal Plus, de TV e cinema.
A lista de desmembramentos inclui marcas que foram ícones, mas mergulharam em dificuldades e acharam melhor se desfazer dessas operações para manter negócios menos conhecidos, porém de crescimento rápido. A americana Motorola dividiu-se em duas em 2011. Um dos resultados da cisão, a Motorola Solutions, de infraestrutura, seguiu adiante. A Motorola Mobility, de celulares, foi comprada pelo Google em 2012 e repassada para a Lenovo no início deste ano. A finlandesa Nokia vendeu sua divisão de celulares para a Microsoft em 2013. Reteve em mãos os negócios de mapas e redes, além das patentes.

fonte

http://www.valor.com.br/empresas/3724692/quando-ficar-menor-e-o-caminho-mais-adequado-para-voltar-crescer#ixzz3FZ5Smk6o