Com quebra de patente do Viagra, genérico invade as farmácias

Vendas de remédios para disfunção erétil quintuplicou nos últimos quatro anos. – Chris Ratcliffe / Bloomberg

SÃO PAULO – Um dia após a patente do Viagra expirar no Brasil — onde as vendas de remédios para difunção erétil quintuplicou nos últimos quatro anos —, as farmácias foram inundadas com um genérico do produto, numa operação planejada por três anos com um time de pesquisadores, e advogados e marqueteiros. Eles foram despejados pelo laboratório brasileiro EMS, a R$ 10, metade do valor do preço da droga original, da Pfizer.

– Os genéricos são a parte do mercado que cresce mais rápido – afirmou o consultor da McKinsey & Co, Tracy Francis, em entrevista. – Uma grande parte da classe média está comprando medicamentos com seu próprio dinheiro, por isso o preço é justo. Os genéricos são um negócio para empresas com escala – há uma série de pontos de venda e você precisa negociar os termos com os varejistas.

Os consumidores da classe média emergente que pagam por dois terços dos custos do medicamento do próprio bolso tendem a escolher os genéricos no balcão de remédios. A IMS Health (IMS) prevê crescimento de 10% ao ano até 2019 para o setor, enquanto os subsídios governamentais para compra de medicamentos e financiamento para a inovação a partir de banco de desenvolvimento estatal do Brasil compensam o crescimento econômico que desacelerou para 2,2% em 2013, segundo o economista da Universidade Estadual de Campinas, Geraldo Biasoto.

BILIONÁRIOS OCULTOS

Ainda que a indústria farmacêutica do Brasil não seja conhecida como um celeiro de inovação – Sanchez investe cerca de metade do que a Pfizer em pesquisa e desenvolvimento como um percentual da receita – isso não impediu os “imitadores” fármacos, como Sanchez, de se tornarem bilionários.

Desde que assumiu o negócio farmacêutico de sua família, aos 26 anos, Sanchez transformou a EMS Participações em uma empresa farmacêutica com receita de R$ 2 bilhões em 2013. Seu patrimônio líquido é avaliado em US $ 2,9 bilhões, de acordo com o Índice Bloomberg Billionaires, incluindo um coleção de arte financiada por anos de dividendos.

Maurizio Billi, acionista majoritário da terceira maior produtora de medicamentos no Brasil, a Eurofarma Laboratórios, acumulou uma fortuna no valor de mais de US $ 1,2 bilhões e fez fortunas bilionárias para os seus três principais acionistas, as famílias Depieri, Baptista e Siaulys.

GENÉRICOS

A Eurofarma e a EMS são superadas em escala pelo Laboratório Neo Química, a unidade farmacêutica da empresa de bens de consumo Hypermarcas, que teve receita de R$ 2,3 bilhões no ano passado. As duas empresas são os segundo e terceiro maiores produtores de comprimidos de citrato de sildenafil no Brasil, seguidos pela Pfizer em sexto lugar, de acordo a IMS Health.

A EMS exporta para mais de 40 países na América Latina, Europa, África e Ásia. Sanchez, que assumiu a empresa em 1980, após a morte de seu pai, distribui vários derivados de genéricos, incluindo uma imitação do Lipitor, para redução de colesterol, e um imunossupressor que impede a rejeição de órgãos transplantados.

Fundada em 1972 por Galliano, pai de Maurizio, a Eurofarma teve um faturamento de R$ 1,9 bilhões em 2013, alimentada por 1.700 comerciantes que convencem os médicos a recomendar genéricos da empresa, que incluem o genérico do Viagra e o contraceptivo oral Tamisa.

– Começamos a promover os nossos produtos no escritório médico nos anos 90, e hoje a prescrição médica é a nossa maior unidade -, afirma Pilar, em entrevista no complexo industrial da empresa em Itapevi, São Paulo.

RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS

A recente mudança de regra permite que o Ministério da Saúde compre medicamentos de laboratórios sem um processo de licitação pública, desde que as empresas tenham uma parceria com um laboratório estatal. A EMS é líder em negócios com o governo e fornecedora em pelo menos 15 dessas parcerias, de acordo com o ministério.

A Eurofarma, que doou R$ 2,3 milhões em 2010 e 2012 para campanhas eleitorais, recebeu a concessão de um dos contratos. Já a EMS não registrou quaisquer doações.

O programa do governo, Farmácia Popular, para subsidiar a compra de medicamentos está impulsionando o crescimento dos genéricos, disse Pedro Bernardo, diretor da Interfarma, associação de empresas de pesquisa farmacêutica do Brasil. Seu orçamento cresceu mais de 40% este ano desde 2013 para R$ 2,6 bilhões.

Em uma tentativa de diminuir o gasto anual do governo de US$ 6 bilhões com medicamento, o BNDES está financiando contratos entre empresas estrangeiras e locais para apoiar o desenvolvimento local de medicamentos biológicos caros. A EMS juntou forças com a Ache, União Química e Hypermarcas para um laboratório de pesquisa de R$ 550 milhões. O BNDES também emprestou R$ 190 milhões em fevereiro para um laboratório da EMS em Manaus, sob unidade Novamed da empresa.

fonte

http://oglobo.globo.com/economia/negocios/com-quebra-de-patente-do-viagra-generico-invade-as-farmacias-revela-gigante-do-setor-13580096