A Origem dos Inventos – Tetris

tetris-game-boy

Há 30 anos atrás, um certo engenheiro de computação, com ajuda de dois amigos resolveram criar um simples puzzle para computadores, baseado em estudos de formas geométricas e que a princípio não tinha pretensão nenhuma. Bastou entretanto começar a ser compartilhado entre usuários de computador pelo mundo afora que despertou a cobiça de desenvolvedoras, o que levou a uma das mais curiosas histórias de licenciamento da história dos games, envolvendo a União Soviética, ladrões, processos intermináveis e um criador que ficou anos sem receber royalties. Esse é Tetris, o game mais jogado e mais portado da história.

 

O início

alexey-pajitnov

Quando Alexey Pajitnov desenvolveu a primeira versão de Tetris, disponibilizando a versão final no dia 6 de junho de 1984, ele não imaginava que um projeto menor que desenvolveu enquanto trabalhava para o Centro de Computação da Academia de Ciências Soviética se tornaria tamanha coqueluche. Baseado em estudos de jogos matemáticos e poliominós iniciados nos anos 50 pelo professor Solomon W. Golomb, ele deu ao game o nome de Tetris, baseado na palavra grega Tetra (quatro) e no seu esporte favorito, o tênis. Os pentominós são jogos de mesa onde você encaixa peças geométricas compostas por cinco quadrados em um quadrado ou um retângulo. Para o game, Alexey utilizou peças de quatro quadrados.

tetris-elektronika-60

O game foi desenvolvido originalmente para o computador soviético Elektronika 60 em conjunto com Dmitri Pavlovsky e Vadim Gerasimov, este último responsável por portá-lo para o IBM PC, o que foi crucial para que Tetris se tornasse popular. Em pouco tempo o jogo se alastrou por Moscou, não demorando muito para atingir estados-satélites do regime soviético. Foi na Hungria, mais precisamente em Budapeste que desenvolvedores locais começaram a converter Tetris para outras plataformas. Foi lá também que o sururu dos direitos sobre o game começou.

Uma grande confusão

Alexei Pajitnov chegou a negociar Tetris com uma desenvolvedora norte-americana chamada Spectrum HoloByte, o primeiro estúdio que lançou o game além da Cortina de Ferro. Através dela Tetris chegou ao MS-DOS, Apple II, Macintosh, Atari ST, Amiga e ZX Spectrum. Paralelamente, um desenvolvedor chamado Robert Stein da Andromeda Software descobriu o game no Instituto de Tecnologia da Hungria em 1986. Estes o mandaram entrar em contato com a Academia Soviética, que enviou Pajitnov para negociar. De acordo com ele, ao propor “um adiantamento de cem mil libras” e o Centro de Computação se mostrar interessado, Stein entendeu que isso lhe garantia o direito irrestrito ao game. Ainda que isso fosse um mal entendido (ou uma bela mentira), a versão da Andromeda para o Commodore 64 foi bem elogiada.

A partir daí as coisas só pioraram. Stein negociou os direitos com uma terceira chamada Mirrosoft, que também lançou versões para Amiga e Atari ST, ao passo que a Sega lançou um arcade de Tetris no Japão. O caos era generalizado e foi então que em 1988, o governo soviético resolveu pôr ordem na casa: como Tetris foi desenvolvido por Pajitnov num laboratório de P&D soviético, os direitos do game pertenciam em primeiro lugar obviamente à boa e velha Mãe Rússia, sendo reservado a ela o direito de negociação por dez anos; passado esse tempo os direitos voltaram para as mãos de Pajitnov. O órgão estatal ELORG (de Elektronorgtechnica), responsável por negociar importação e exportação de software e controlado pelo Minstério das Relações Exteriores era o encarregado por regular o licenciamento de Tetris.

tetris-mirrorsoft

Nesse ponto você pode imaginar o que ocorreu: as diversas empresas que alegavam deter os direitos de Tetris na verdade estavam apoiadas em nada, e isso proporcionou à Nintendo conseguir não só a primeira licença legal como esmagar seus rivais.

From Russia With Love

rogers-pajitnov

Quando o Game Boy estava em fase de desenvolvimento, o pensamento normal da empresa era que o game viesse com uma versão de Mario no pacote. Aconteceu que a empresa foi abordada por Henk Rogers, um designer e desenvolvedor que havia visto Tetris na CES de 1988, ficando literalmente maluco com o game. Isso o fez procurar o então presidente da Nintendo of America Minoru Arakawa, dizendo que a empresa deveria assegurar uma licença para o game ser distribuído com o portátil a todo custo. Arakawa, assim como toda a cúpula da Nintendo (lembrando, ele era genro de Hiroshi Yamaguchi) acreditava que Super Mario Land era uma opção melhor, mas Rogers tinha um argumento bem convincente:

Mario é um produto que vende bem para garotos; já Tetris atrai todo mundo.

Rogers conseguiu garantir os direitos junto à Spectrum HoloByte e a Tengen, uma empresa-satélite da Atari responsável pelo clone TETЯIS: The Soviet Mind Game, além de entrar em contato com Robert Stein, o mesmo da Andromeda Software. Só que meses se passaram e nada de Stein conseguir uma licença, o que levou Rogers a tomar uma decisão inusitada: pedir mais tempo à Nintendo e ir à Moscou sem convite em fevereiro de 1989.

A missão era simples: tratar do licenciamento de Tetris diretamente com o ELORG. Entretanto, um movimento errado da Nintendo a fez entrar em contato com a Mirrorsoft em busca de uma licença, o que levou a companhia a mandar um representante chamado Kevin Maxwell a Moscou. Como o ELORG estava negociando ao mesmo tempo com Rogers e Maxwell e o governo soviético sequer conhecia o conceito de propriedade intelectual, o órgão tentou arrancar o máximo de dinheiro possível da Nintendo, acima do que ela estava disposta a pagar. No fim Rogers desfiou a trama toda: Stein nunca havia pago pela licença, tendo negociado com a Mirrorsoft algo que não existia. Ao mesmo tempo a ELORG já havia designado o oficial do Partido Comunista Nikolai Belikov para reexaminar o acordo com a Andromeda Software, e descobriu que o pagamento deveria ser feito no ato do fechamento da negociação em 10 de maio de 1988.

Em outubro, Stein foi pressionado por Belikov a honrar o contrato, enquanto o mesmo estava enrolando para pagar. Portanto, quando Rogers chegou em Moscou quatro meses depois, NINGUÉM possuía uma licença oficial do game. Posteriormente Belikov alterou o contrato de Stein, adicionando uma penalidade que o impediria de comercializar versões caseiras de Tetris (algo que representantes como a Tengen já haviam feito; Belikov chegou a confrontar Maxwell com um cartucho de Famicom, que para a ELORG era um software pirata) e para distraí-lo, adicionou despesas por atrasos de pagamento. Ludibriado, Stein não percebeu a alteração no contrato até ser tarde demais.

Passadas as pendengas iniciais um pré-acordo foi firmado com a Nintendo, mas Moscou fez uma contra-proposta à Maxwell para que a Mirrosoft tivesse a oportunidade de cobrir a oferta. Infelizmente para ele, o ELORG enviou o documento via fax para Londres, e ele estava em Moscou. Com a Mirrorsoft fora da jogada Rogers fechou uma licença exclusiva para a Nintendo em consoles, o que permitiu que o Game Boy saísse de fábrica com Tetris incluso na América em julho de 1989 e Europa em setembro de 1990. Entretanto houveram complicações legais no Japão: de posse da licença a Nintendo contactou a Tengen por roubo de IP e a resposta foi um processo. Como ela já havia lançado o game para o NES, lá ele foi de fato lançado com Super Mario Land em 21 de abril de 1989, e Tetris chegou dois meses depois.

A Nintendo pôde com a licença bater de frente com as desenvolvedoras concorrentes, dessa vez sem questionamentos. A Tengen foi obrigada a retirar TETЯIS do mercado, assim como a Sega foi impedida de produzir uma versão para o Mega Drive. A questão dos computadores só foi decidida em 1996, quando os direitos do game voltaram para as mãos de Pajitnov. Ele então fundou junto com Rogers a The Tetris Company (vulgo TTC), a hoje detentora de todos os direitos relativos ao game. A partir daí ela processou inúmeras empresas por copiar o nome, visual e o “look and feel” do puzzle, enquanto licencia a marca legalmente. Foi só através da TTC que Pajitnov passou a receber royalties.

De lá para cá Tetris já foi pivô de diversas histórias, inclusive uma envolvendo o guru Steve Wozniak: por muitos anos ele foi o melhor jogador do game, mandando seus scores para a revista Nintendo Power mês após mês. Como ele era quase uma muralha intransponível, a fim de dar uma chance aos outros leitores Woz foi banido da publicação, já que ela não mais publicaria seus scores. A solução foi genial: ele escreveu seu nome ao contrário, mudou o endereço de Los Gatos para Saratoga e enviou o score. O resultado:

evets-kainzow-tetris-score

Ao todo Tetris foi portado para cerca de 65 plataformas diferentes, o que lhe garantiu uma vaga no Guinness Book. A versão de Game Boy é a mais vendida dentre as mídias físicas, respondendo por 35 das 70 milhões de cópias comercializadas em todo o mundo. Já nas plataformas mobile esse número aumenta ainda mais: excluindo games free-to-play, Tetris e suas variações já venderam 425 milhões de unidades. Nada mal para um game que começou como um projeto despretensioso em um laboratório de informática, e que foi pivô de uma verdadeira Guerra Fria dos videogames, onde só faltou um agente secreto. Algo que só a Mãe Rússia faz por você.

 fonte

http://meiobit.com/289280/tetris-30-anos-uma-historia-de-roubos-trapacas-e-muito-mais