Regime Internacional de Propriedade Intelectual: Imposição normativa estadunidense através das Cláusulas TRIPS-PLUS

Autores: Henrique Zeferino Menezes, Luciana Correia Borges e Pedro Henrique Mota de Carvalho

*O presente artigo foi publicado anteriormente na Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015

 

Introdução

O objetivo deste artigo é analisar uma dimensão dos impactos produzidos pela recente estratégia estadunidense para adoção de regras internacionais para proteção à propriedade Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 70 intelectual (PI), especialmente aquelas constituídas a partir da celebração de acordos preferenciais de comércio contendo capítulos específicos sobre a matéria. Efetivamente, busca-se discutir os efeitos que a estratégia de negociação de acordos preferenciais impõe sobre o regime multilateral de PI, assim como os impactos produzidos sobre a capacidade dos países signatários desses acordos fazerem uso das flexibilidades existentes nas regras multilaterais.

Ao longo das três últimas décadas houve uma grande proliferação de acordos internacionais voltados a regular a proteção à PI, negociados em instâncias multilaterais e preferenciais – acordos bilaterais, regionais e plurilaterais. Nesse cenário, os Estados Unidos são, indubitavelmente, os maiores interessados na conformação de normas que resguardem a propriedade privada sobre os intangíveis de seus cidadãos e empresas, além de serem, efetivamente, o principal ator no processo de negociação de acordos internacionais que ampliem e fortaleçam as regulações sobre a matéria. Desde os anos 1980, os EUA carregam uma importante agenda maximalista em PI, que se manifesta internacionalmente com a negociação e a proliferação de normas e compromissos internacionais. Saliente-se que o termo aqui empregado deriva da análise e da terminologia adotada por Halbert (2011), politics of IP maximalism e da perspectiva utilizada por Susan Sell (2011). Em linhas gerais, essa agenda engloba um conjunto de processos políticos para transformar leis e instituições do sistema de proteção estadunidense, além de estruturar uma estratégia política internacional para negociação de compromissos e normas de proteção à PI mais privatizantes.

De forma geral, a construção de um aparato normativo para regular e garantir a proteção privada sobre o conhecimento impõe limitações e constrangimentos legais a países e empresas no uso de tecnologias protegidas, assim como impacta a organização e a implementação de estratégias e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico e social por parte de países em desenvolvimento, especialmente aqueles em processo de catch up. As controversas políticas acerca dos rumos da organização do regime internacional de PI são inúmeras e perpassam, como fio condutor, os impactos da pulverização de normas sobre a matéria nas trajetórias de desenvolvimento dos países, além dos efeitos que impõem à própria estrutura do regime multilateral.

Assim, apresentar-se-á uma discussão acerca da atuação dos EUA e do papel desempenhado por esse país na promoção de um aparato normativo internacional de garantia de proteção à PI, observando, de forma mais detida, a negociação de acordos e compromissos por vias distintas das multilaterais, e os impactos dessa estratégia. Para Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 71 tanto, será necessário, inicialmente, trazer à discussão elementos introdutórios acerca da conformação do regime internacional de proteção à PI, especialmente, os compromissos multilaterais assumidos com a adoção do Trade-related Aspects of Intellectual Property (TRIPS), como resultado da Rodada Uruguai do GATT (1986-1994). Na sequência, apresentar-se-á uma análise sobre as disposições normativas presentes nos acordos preferenciais negociados pelos EUA com um conjunto variado de parceiros, assim como a própria estratégia do país para avançar com a negociação em PI em instâncias preferenciais. A partir daí, buscar-se-á efetivamente apresentar os impactos que estes acordos e normativas podem representar para os países signatários, especialmente na utilização das flexibilidades dispostas no TRIPS, assim como os impactos eventualmente produzidos pela pulverização de normas de propriedade intelectual sobre a configuração do regime multilateral.

1. Regime Internacional de Propriedade Intelectual e a estratégia maximalista A discussão proposta neste primeiro tópico perpassa três questões fundamentais para uma compreensão mais detida dos efeitos da agenda estadunidense sobre o regime internacional de PI. Primeiramente, a apresentação de um debate da economia política, que tem como cerne a relação entre a proteção à PI e o desenvolvimento econômico e social. Em seguida, uma discussão sobre os processos políticos de construção do regime multilateral de PI, abordando as implicações da harmonização dessas regras com a adoção do TRIPS. Esses elementos são fundamentais para uma leitura analítica da agenda maximalista corrente dos EUA, que também será abordada nessa seção. Na seção subsequente, tratar-se-á diretamente dos impactos e dos efeitos dessa agenda.

O debate sobre o papel da PI no desenvolvimento econômico passa por um amplo conjunto de temáticas, mas tem como eixo fundamental a controvérsia acerca da concessão de um direito de monopólio temporário sobre o conhecimento como forma de incentivo à inovação tecnológica. Nesse debate, duas vertentes quase antagônicas merecem destaque. De um lado, uma vertente tradicional, próxima da linhagem neo-clássica da economia, que compreende a PI como instrumento efetivo e inerentemente balanceado de estímulo à inovação tecnológica. Essa conclusão se depreende do argumento de que ela seria uma medida imprescindível para garantir a remuneração necessária para os inventores manterem níveis adequados de investimento, que possam, no futuro, beneficiar a sociedade. Ou seja, os direitos de PI funcionariam como mecanismo acessível e eficiente para garantir a apropriabilidade dos frutos da inovação e a exploração comercial de Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 72 criações intelectuais (ALBUQUERQUE, 2006; LEVIN et al, 1987; DOSI, MARENGO, PASQUALI, 2006).

Ainda mais importante para os fins desse artigo é destacar o uso retórico desta visão tradicional em negociações internacionais. Em linhas gerais, os argumentos eram justamente o “combate à pirataria em escala global” e a “apropriabilidade dos frutos da inovação” como forma de estímular a inovação e desenvolvimento em escala global. Nesse sentido, justificar-se-ia o esforço pela harmonização das normas internacionais de proteção à PI e os processos contemporâneos de negociação de acordos TRIPS-plus (SELL, 1998; WATAL, 2001), ou seja, aqueles que avançam normativamente além do padrão mínimo de proteção estabelecido pelo TRIPS, além de, substancialmente, limitarem as flexibilidades existentes no acordo.

A segunda vertente mencionada não apresenta uma posição fundamentalmente contrária aos direitos de PI, mas propõe uma análise crítica acerca da suposta inequívoca ligação entre a concessão desses direitos e o desenvolvimento econômico. Amparada em uma literatura de corte evolucionário, tendo como elementos de sustentação estudos históricos e pesquisas quantitativas, assume como um dos eixos explicativos fundamentais sobre a lógica da concessão de direitos de PI a tese da “curva em U” (DRAHOS, 2006; MASKUS, REICHMAN, 2005). Com efeito, “a curva em U” indica que o grau de proteção à PI responde ao nível de inovação tecnológico em uma economia e não o contrário. Ou seja, países desenvolvidos, já na fronteira tecnológica, tendem a oferecer um nível de proteção mais abrangente, assim como demandar a adequação de seus parceiros comerciais a padrões de proteção elevados. Enquanto países em processo de catch-up dependeriam de ou demandariam sistemas menos rigorosos que permitissem a imitação e o uso de conhecimento como instrumento de construção de capacidades tecnológicas nacionais – ou seja, necessitam de uma legislação mais flexível do que aquelas dos países desenvolvidos. Consequentemente, uma vez que esses países se desenvolvem, passam não somente a inovar de fato, mas também a oferecer uma proteção mais efetiva aos direitos de PI. Chang (2001), em estudo histórico de amplo espectro, demonstra que a realidade da “curva em U” é observada ao longo da trajetória dos países desenvolvidos. As práticas de cópia e engenharia reversa eram corriqueiras, assim como a apropriação de inveções realizadas por estrangeiros.

Como dito, os argumentos dessa vertente não buscam negar o papel de estímulo à inovação que a PI possa ter, mas demonstrar que seu papel é contingencial, variando segundo o estágio específico de desenvolvimento em que os países se encontram. Para Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 73 aqueles em trajetorias de catching-up, uma legislação que priorize a concessão de direitos privados, especialmente de estrangeiros, frente à disseminação do conhecimento, produz impactos negativos na construção de capacidades tecnológicas endógenas, de modo que – e ao contrário do apregoado pela vertente tradicional – seu estágio de desenvolvimento é que determina a extensão da proteção oferecida (JAFFE; LERNER, 2004).

A controvérsia acerca dos efetivos impactos da concessão de direito de monopólio temporário sobre o conhecimento atinge, assim, outro elemento fundamental, a harmonização internacional dos padrões de proteção e seus efeitos em países em níveis de desenvolvimento díspares. O TRIPS, como tratare-se-á a seguir, produziu uma forte harmonização internacional das normas de PI, impondo um grau de uniformidade significativo entre países com níveis de desenvolvimento distintos, em uma abordagem one-size-fits-all que entra em contradição com o próprio histórico da construção dos sistemas nacionais e internacionais de PI (GALLAGHER, 2005).

O TRIPS, negociado ao longo da Rodada Uruguai do GATT (1986-1994), conformou a base do regime internacional de PI, na medida em que estabeleceu um padrão mínimo obrigatório de proteção extensivo a todos os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC). Dentre seus principais elementos constitutivos, o acordo criou um conjunto amplo, uniforme e obrigatório de regras relativas à proteção dos direitos de PI em todas suas manifestações (i.e. basicamente, a proteção de direitos autorais e conexos, marcas, indicações geográficas, desenhos industriais, patentes, topografias de circuitos integrados, além da obrigatoriedade de concessão de algum tipo de proteção, mesmo que sui generis, às novas variedades vegetais), padronizou os sistemas nacionais de concessão desse direito entre os países e harmonizou internacionalmente as modalidades, formas e meios de proteção privada ao conhecimento (WATAL, 2001).

A origem das demandas por um acordo como esse está na interação entre um conjunto de instituições governamentais estadunidenses com grupos de setores privados intensivos em tecnologia desse país. Amparados por mudanças nas leis nacionais que regulavam a proteção da PI durante as décadas de 1970 e 1980, esses atores passaram a advogar maior proteção internacional, por meio da “exportação” dos padrões de proteção constituídos nacionalmente (DOREMUS, 1995). Apesar de retoricamente se justificar a harmonização e o fortalecimento das regras internacionais de PI como forma de produzir maior previsibilidade e estabilidade nas relações econômicas internacionais, especialmente na comercialização de bens intensivos em tecnologia e meios de comercialização digital, nota-se que essa demanda corresponde muito mais à internacionalização da legislação Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 74 estadunidense, privilegiando a proteção aos direitos privados frente à disseminação do conhecimento (SELL, 2003; CORIAT, 2002). Essa lógica de internacionalização dos padrões nacionais de proteção à PI é analisada na literatura internacional, destacando-se Doremus (1995), que construiu, de forma mais substancial, essa narrativa ainda no momento do auge da construção dessa agenda política, além de Sell (2003), que expõe com precisão o papel dos grupos privados estadunidenses, com capacidade de influenciar a agenda do United States Trade Representative (USTR), na conformação da agenda em PI do país nesse período.

Até a adoção do TRIPS, as normas que regulavam a concessão de direitos de PI internacionalmente permitiam maior liberdade aos governos, para projetar as instituições que comporiam os sistemas nacionais de proteção, comportando maior margem de manobra na adequação das legislações nacionais às necessidades específicas e suas características particulares. A Convenção de Paris e a Convenção de Berna, ambas de finais do século XIX, constituíam as bases normativas desse regime e tinham como objetivo a prescrição de normas gerais de conduta aos países signatários, que levavam em consideração os princípios de não-discriminação e tratamento nacional. Ou seja, previam a liberdade dos países ajustarem livremente seus sistemas nacionais de proteção e os obrigavam a assegurar igualdade de tratamento a nacionais e estrangeiros. Importa mencionar que a criação do United International Bureau for the Protection of Intellectual Property (BIRPI), em 1883, e, posteriormente, da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) consolidaram a estrutura institucional para administração dos tratados mencionados e outros adotados ao longo de mais de um século de história do regime internacional de propriedade intelectual (MAY; SELL, 2006).

O TRIPS, por sua vez, longe de afirmar princípios gerais de conduta, rompe com o paradigma precedente ao obrigar os governos a adequarem suas normas e instituições a disposições normativas claras, precisas em seu conteúdo, bem como a criarem regras e mecanismos específicos de observância de direitos. Além disso, o estabelecimento do TRIPS, em conformidade com a estrutura institucional da OMC, vinculou a adequação legal dos países ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização (WATAL, 2001). Nesse sentido, o TRIPS limitou sensivelmente a margem de manobra dos países, uma vez que estabeleceu, por exemplo, a obrigatoriedade da concessão de patentes para totalidade das áreas tecnológicas (Art. 27:1), determinando, também, um prazo mínimo de 20 anos para a duração do termo para proteção patentária. Essas medidas tornaram ilegais as práticas de exclusão de patenteamento de setores tecnológicos, tendo em vista não Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 75 somente o desenvolvimento industrial, mas também o bem-estar público, como era o caso de países como Brasil e Índia que excluiam o patenteamento de fármacos e gêneros alimentícios.

O processo político para construção do TRIPS envolveu, então, a manifestação de um grupo político organizado e enraizado na estrutura administrativa estadunidense, mas também retratou uma dimensão estratégica da conformação da agenda de proteção à PI dos EUA, fundamental, inclusive, para se compreender sua especificidade e manifestação mais recente: a utilização de uma estratégia de forum shifting. Essa estratégia prevê a transferência deliberada da pauta de negociações de um fórum, que se encontra em impasse entre propostas concorrentes, para outros fóruns nos quais se percebe que a negociação poderá desenvolver-se de modo mais vantajoso. Essa estratégia se manifesta de duas formas: uma primeira, de caráter horizontal, que caracteriza a transferência de pauta entre instâncias multilaterais; e uma segunda, de natureza vertical, que trata da transferência de fóruns multilaterais para instâncias preferenciais, de menor abrangência (HELFER, 2004; SELL, 2011).

O TRIPS é um caso emblemático da utilização dessa estratégia de migração de fóruns. A insatisfação dos EUA e outros países desenvolvidos com a forma institucional que regulava a proteção à PI internacionalmente, estruturada em torno da OMPI, foi o principal fator responsável pela migração das negociações em PI para o regime multilateral de comércio, ainda nos anos 1980. Esses países se mostravam insatisfeitos com a atenção dada pela OMPI às demandas de países em desenvolvimento, assim como com o fato dos tratados negociados nessa Organização não terem obrigatoriedade de adesão.

As negociações da Rodada Uruguai, sob o principio do single undertaking, dotaria de efetividade a adesão de todos os membros ao acordo, assim como a criação do mecanismo de solução de controvérsias daria aos países-membros a capacidade de adequar os desviantes às normas previamente estabelecidas.

Representativo, todavia, o TRIPS não é o único exemplo histórico de forum shifiting nas negociações em PI. Após a sua adoção, houve uma profusão de acordos internacionais que escapavam da arena multilateral constituída para as deliberações sobre a matéria – o Conselho do TRIPS. Nesse período, os EUA passaram a pressionar pela constituição de normas TRIPS-plus, mas houve paralisação das negociações e entraves nesse fórum e, na realidade, a aproximação das negociações nessa instância às demandas de países em desenvolvimento, forçaram o país a levar suas demandas para múltiplas instâncias. Ou seja, os EUA lançaram mão novamente da estratégia de forum shifting, promovendo uma Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 76 espécie de retorno à OMPI e outras organização internacionais, assim como demandando negociações preferenciais com um amplo conjunto de países. Saliente-se também que alguns países em desenvolvimento passaram a pressionar, no Conselho do TRIPS, pela construção de salvaguardas para promover políticas de saúde pública, tendo como resultado a Declaração de Doha e Saúde Pública; além de buscarem a adequação das normas de PI às diretrizes da Convenção da Diversidade Biológica (CDB) para proteção da diversidade biológica e cultural.

É esse último tipo de negociações que será tratado de forma mais detalhada nesse artigo, mas não sem abordar, mesmo que superficialmente, as iniciativas promovidas pelo país para avançar normativamente em âmbito multilateral. Saliente-se que organizações internacionais aparentemente não relacionadas às discussões em PI passaram a receber demandas por parte dos EUA para negociação de normas e compromissos com padrões TRIPS-plus. Duas merecem destaque pela abrangência das agendas apresentadas pelos EUA: a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Aduanas (OMA).

Na OMPI, os EUA foram responsáveis por importantes demandas para negociação de compromissos multilaterais capazes de encampar formas de proteção à PI que extrapolassem os padrões mínimos estabelecidos pelo TRIPS. Especificamente na área de proteção aos direitos autorais, demandaram dois importantes acordos que compunham a chamada Digital Agenda (WIPO Copyright Treaty,WCT, e WIPO Perfomances and Phonograms Treaty, WPPT). Ainda mais importante foi a Patent Agenda, que visava estabelecer uma padronização nos processos de avaliação e concessão de patentes, ou seja, uma harmonização das práticas globais com o propósito de regular e restringir a liberdade de os países estabelecerem parâmetros nacionais próprios sobre a questão e com o intuito de construção de uma “patente internacional”. A Patent Agenda envolveu a reforma do Patent Cooperation Treaty (PCT), a busca pela adoção do Patent Law Treaty (PLT) e a negociação do ambicioso Substantive Patent Law Treaty (SPLT). Apesar da importância desse último acordo para a agenda estadunidense e da densidade de suas cláusulas para a harmonização dos sistemas nacionais de proteção à PI, ele acabou superado por uma proposta contrária, organizada por uma coalizão de países em desenvolvimento que tinha Brasil e Argentina como principais patrocinadores.

O lançamento da Agenda do Desenvolvimento, em 2004, e sua adoção, três anos mais tarde, fizeram estancar essa face da agenda maximalista que avançava na OMPI, assim como estabelecer uma proposição que tinha como elemento constitutivo o fortalecimento e Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 77 o aprofundamento das flexibilidades existentes no regime multilateral (NETANEL, 2009; MUZAKA, 2011; MENEZES, 2013). A agenda se materializou efetivamente em um conjunto de 45 recomendações a serem implementadas pela OMPI, tendo como objetivo o comprometimento da organização quanto às demandas de países em desenvolvimento para ampliar a capacidade de uso das flexibilidades e limitações garantidas pelo TRIPS para formular políticas de desenvolvimento.

A negociação de acordos preferenciais de comércio também representou uma resposta à paralisação das negociações multilaterais e constituiu, pelo menos recentemente, um instrumento importante na agenda de comércio estadunidense. Desde o início dos anos 1990, a negociação de acordos dessa natureza tem sido uma opção estratégica para os EUA. Entretanto, foi durante a administração de George W. Bush (2001-2009), tendo em vista a insatisfação com os rumos das negociações multilaterais, especialmente com a paralisação da Rodada Doha da OMC, que os EUA massificaram a política de abertura e conclusão de acordos preferenciais de comércio (BASTOS, 2004). Esse cenário, atrelado à dificuldade de avançar com demandas TRIPS-plus em âmbito multilateral, deu a essa modalidade de negociação certa centralidade na agenda de PI dos EUA. Nesse sentido, a negociação de acordos preferenciais de comércio, e também de investimentos, passou a ser um instrumento propulsor de normas de proteção à PI.

Atualmente, os EUA têm acordos preferenciais de comércio assinados com 20 países (i.e. Austrália, Bahrein, Canadá, Cingapura, Chile, Colômbia, Coréia do Sul, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Israel, Jordânia, México, Marrocos, Nicarágua, Omã, Panamá, Peru e República Dominicana), todos eles contendo capítulos específicos de PI com padrões TRIPS-plus. Foi ainda nesta gestão Bush que os EUA abriram as negociações do controverso Anti-counterfeiting Trade Agreement (ACTA), um acordo comercial específico voltado à construção de padrões de proteção à PI extremamente elevados, assim como mecanismos de observância de direitos mais efetivos (YU, 2011). Nesse período, os EUA também já sinalizavam a importância da entrada do país nas negociações do Transpacific Partnership (TPP), o que se concretizaria no início do governo de Barack Obama. Esse acordo plurilateral de comércio, englobando um amplo espectro geográfico, tem como elemento fundamental a negociação de um forte e amplo conjunto de normativas em PI (SELL, 2011; FLYNN, 2013).

A tendência de optar pelo forum shifting vertical se manteve na administração Obama, muito embora ressaltando a necessidade de conclusão das negociações iniciadas ao longo da gestão anterior e certo direcionamento das demandas e negociações para garantia Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 78 da aplicabilidade de acordos já estabelecidos. De toda forma, o período subsequente ao TRIPS foi marcado pelo fortalecimento da estratégia de forum shifting para avançar com a agenda maximalista dos EUA, tendo na negociação de acordos preferenciais de comércio, sejam tratados bilaterais ou negociações plurilaterais, uma parte importante. Na próxima seção, abordar-se-á, de forma mais focada, os impactos que essa política de pulverização de acordos não multilaterais com padrão TRIPS-plus impõe sobre o regime multilateral e sobre os países signatários desses acordos.

2. O impacto das cláusulas trips-plus sobre o regime multilateral e o policy space de países em desenvolvimento

Nessa seção, analisar-se-ão os impactos da agenda maximalista estadunidense, especialmente da dimensão que avança por meio da negociação de acordos preferenciais. Para tanto, é necessário apresentar, mesmo que brevemente, um elemento estrutural do regime multilateral de PI: as flexibilidades normativas existentes no TRIPS. Apesar de harmonizar profundamente os sistemas nacionais de proteção, o TRIPS assegurou algumas pequenas flexibilidades; de modo que estas pudessem, minimamente, garantir meios para um ajuste entre as demandas e características nacionais às prerrogativas gerais e obrigatórias do acordo.

Em linhas gerais, essas flexibilidades podem ser divididas em quatro categorias, segundo tipologia do Secretariado da OMPI: i) flexibilidades referentes ao método de aplicação doméstica das obrigações dispostas no TRIPS; ii) flexibilidades explicitamente apontadas nas normas substantivas do acordo; iii) flexibilidades em relação aos mecanismos de enforcement; iv) flexibilidades relacionadas às áreas não cobertas pelo acordo (WIPO 2015). As flexibilidades listadas no primeiro e segundo itens são, de longe, as mais relevantes para os propósitos desse texto.

O primeiro grupo de flexibilidades resulta da linguagem utilizada no TRIPS. Sob essas flexibilidades, os países podem interpretar e adaptar os conceitos que o acordo estabelece às suas demandas específicas, tendo em vista que o texto não os define de maneira exaustiva. Ou seja, a falta de precisão em alguns termos, assim como afirmativas vagas e de ampla possibilidade interpretativa, abre margem para diferentes enquadramentos das normativas. O artigo 1º do TRIPS, por exemplo, determina:

Os Membros poderão, mas não estarão obrigados a prover, em sua legislação, proteção mais ampla que a exigida neste Acordo, desde que tal proteção não contrarie as disposições deste Acordo. Os Membros determinarão livremente a forma apropriada de implementar as Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 79 disposições deste Acordo no âmbito de seus respectivos sistema e prática jurídicos.

 

Esse artigo é o que estabelece o caráter mínimo obrigatório do TRIPS, assim como certa liberdade aos países no processo formal de implementação das cláusulas do acordo. Entretanto, trata-se de uma flexibilidade extremamente limitada, tendo em vista que, ao longo do texto, um conjunto de obrigações explícitas é elencado de forma a constranger e cercear essa liberdade geral estabelecida no primeiro artigo do TRIPS.

O Artigo 7º do TRIPS também carrega a mesma característica, ao estabelecer uma flexibilidade formal ampla aos países-membros do acordo, mas as próprias obrigações estabelecidas no corpo do texto não permitem a efetiva difusão de conhecimento por meio de instrumentos não vinculados à concessão de direitos de PI, conforme segue:

A proteção e a aplicação de normas de proteção dos direitos de propriedade intelectual devem contribuir para a promoção da inovação tecnológica e para a transferência e difusão de tecnologia, em benefício mútuo de produtores e usuários de conhecimento tecnológico e de uma forma conducente ao bem-estar social econômico e a um equilíbrio entre direitos e obrigações.

Já o Artigo 27 do TRIPS é, dentro dessa perspectiva específica de flexibilidades, o que contém, efetivamente, as maiores e mais importantes margens de manobra. Ao estabelecer, mas não definir, os critérios de patenteabilidade, o TRIPS permite que as legislações nacionais regulem o conteúdo específico desses critérios. Essa liberdade conferida aos Estados-membros garante importante liberdade na conformação dos sistemas nacionais de inovação dos países.

Sem prejuízo do disposto nos parágrafos 2 e 3 abaixo, qualquer invenção, de produto ou de processo, em todos os setores tecnológicos, será patenteável, desde que seja nova, envolva um passo inventivo e seja passível de aplicação industrial.

 

O segundo grupo de flexibilidades diz respeito a interpretações ou cláusulas diretas que permitem redução, limitação ou exaustão de direitos conferidos. No seu artigo 27.2, o TRIPS estabelece:

Os Membros podem considerar como não patenteáveis invenções cuja exploração em seu território seja necessário evitar para proteger a ordem pública ou a moralidade, inclusive para proteger a vida ou a saúde humana, animal ou vegetal ou para evitar sérios prejuízos ao meio ambiente, desde que esta determinação não seja feita apenas por que a exploração é proibida por sua legislação.Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 80

Já o Artigo 27.3 é ainda mais claro e direto ao estabelecer que os países podem considerar um conjunto de matérias não passíveis de proteção, como: a) métodos diagnósticos, terapêuticos e cirúrgicos para o tratamento de seres humanos ou de animais; e b) plantas e animais, exceto microrganismos e processos essencialmente biológicos para a produção de plantas ou animais, excetuando-se os processos não-biológicos e microbiológicos. Ainda nesse grupo de flexibilidades, cabe destacar a existência, em alguns artigos, de mecanismos para que se possa fazer uso de conhecimento protegido sem a autorização do detentor da patente, por meio de medidas como a exceção bolar; licença compulsória; importação paralela.

O terceiro grupo de flexibilidades se refere diretamente às obrigações e aos seus limites no estabelecimento de mecanismos e disposições legais para o enforcement de direitos de PI. O TRIPS garante que os membros da OMC possam optar pela manutenção dos seus sistemas jurídicos nacionais sem a necessidade de construção de instâncias específicas para lidar com a matéria. Da mesma forma, estabelece limites relacionados à criminalização de infrações, apesar de poderem adotar medidas mais rigorosas do que aquelas estabelecidas no acordo.

Por fim, o quarto grupo de flexibilidades trata das lacunas do acordo. O TRIPS não abarca um conjunto de áreas e modalidades de PI, seja por falta de consenso, pela inexistência de tais modalidades no momento da negociação, ou simplesmente porque os negociadores não acharam necessário abordar determinadas áreas. Todavia, tem-se que algumas dessas áreas são de particular interesse dos países em desenvolvimento, tais como as que versam sobre os modelos de utilidade e conhecimentos tradicionais.

Elencar estas flexibilidades é importante para o entendimento do impacto da estratégia estadunidense de forum shifting para negociação de normas TRIPS-plus, especialmente com a pulverização de acordos preferenciais de comércio, porque são exatamente essas flexibilidades remanescentes no TRIPS que os EUA pretendem limitar com a negociação desses acordos (SELL, 2011; CORIAT, ORSI 2002). Quando se analisam os impactos dessa estratégia, pode-se dizer que ela leva, por um lado, a impactos diretos com a limitação do policy space dos países signatários. E, de outro lado, a um impacto mais difuso, com implicações sobre a própria estrutura do regime multilateral de PI. Esse impacto difuso diz respeito ao risco de esvaziamento de importantes fóruns de negociação, ameaçando enfraquecer o regime multilateral como um todo. Ou seja, não é apenas o conteúdo específico das cláusulas TRIPS-plus que resulta em impactos e causa Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 81 controvérsias entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas a estratégia de forum shifiting pela qual se promove sua negociação é também elemento de desestabilização.

Ao se analisar diretamente as cláusulas TRIPS-plus contidas nos diversos acordos assinados pelos EUA, é possível apontar alguns dos mais importantes efeitos que a negociação de acordos dessa natureza pode resultar sobre a capacidade dos países signatários fazerem uso das flexibilidades existentes no TRIPS (GALLAGHER, 2005; SHADLEN, 2005; RUSE-KHAN, 2009). Tomar-se-á como referência para a análise, os acordos que os EUA possuem com os países latino-americanos já em funcionamento, embasada nos capítulos específicos dos acordos CAFTA-DR, US-Chile, US-Colômbia, US-Panamá e US-Peru (USTR 2015) e, além desses, tratar-se-á também da proposta de capítulo sobre PI inserida nas negociações do TPP (FLYNN, 2013).

Dentre as cláusulas TRIP-plus mais importantes estão aquelas voltadas a regular a proteção patentária; os direitos autorais, especialmente aqueles que incidem sobre a Internet; questões envolvendo a proteção a seres vivos; e mecanismos de enforcement. Analiticamente, o mais relevante é destacar os impactos que essas regulações impõem sobre a capacidade dos países implementarem políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico e social, que têm interface com a privatização do conhecimento. Nesse texto, lidar-se-á mais diretamente com patentes e sua relação com políticas de saúde pública, assim como a proteção de variedades vegetais e seus impactos em políticas de desenvolvimento agrícola e segurança alimentar.

A extensão do tempo de proteção a patentes, além dos 20 anos estabelecidos no TRIPS, é uma das demandas mais recorrentes nas proposições de acordos por parte dos EUA e aparecem em todos os casos analisados. Por meio de cláusulas (relacionadas com medicamentos que, muitas vezes, demandam outras autorizações para serem comercializados, como obrigações vinculadas à vigilância sanitária e testes de eficácia), que prevêem a ampliação da duração em decorrência de “atrasos não justificáveis”, tanto nos processos administrativos, quanto nos processos referentes à autorização para comercialização, o governo estadunidense pretende ampliar a capacidade das firmas em controlar o uso do conhecimento útil por parte de terceiros, sem que se comprove que essa extensão pode trazer benefícios públicos. Com isso, cria-se a possibilidade de retirada de domínio público de conhecimento útil, que poderia ampliar a concorrência e reduzir preços. Essa prerrogativa impõe impactos diretos sobre o acesso a medicamentos e sobre políticas de saúde pública ao elevar os custos de aquisição de fármacos e onerar políticas públicas de acesso a medicamentos (GLESSON; LOPERT, 2013). Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 82

Nessa dimensão específica, duas outras questões são vitais. De um lado, a existência de cláusulas em acordos preferenciais que limitam a capacidade de os países fazerem uso do licenciamento compulsório e da importação paralela. Alguns acordos assinados pelos EUA simplesmente proíbem a utilização dessas flexibilidades. Contudo, a licença compulsória é um instrumento importante para ampliar a capacidade de barganha dos países diante das grandes empresas farmacêuticas. O Brasil, inclusive, já fez uso do Licenciamento Compulsório no caso do medicamento antirretroviral Efavirenz.

De outro, está a criação, por vias legais, de um novo tipo de direito de PI, proposto pelos EUA em acordos preferenciais, como é o caso do TPP, denominado “exclusividade de dados”. Esse direito visa tornar passível de proteção os resultados dos testes realizados para confirmar a eficácia e a segurança de um medicamento. Empresas de medicamentos genéricos, que podem fazer uso dos resultados desses testes para conseguir aprovação de seus próprios produtos, obrigando-se a provar que o medicamento tem composição idêntica ao que pretendem comercializar, acabam tendo essa capacidade limitada. Isso as obrigaria a repetir, de forma desnecessária, toda a sequência específica de testes, impondo um significativo aumento de custos de produção de medicamentos genéricos, bem como um maior tempo para sua comercialização (CORREA, 2002).

Por sua vez, algumas normas TRIPS-plus produzem impactos também sobre as políticas de desenvolvimento agrícola e de segurança alimentar de países em desenvolvimento – especialmente aquelas cláusulas que versam sobre a proteção de variedades vegetais e sementes geneticamente modificadas. Nessa temática, os EUA estabelecem a obrigatoriedade de adesão à versão de 1991 do acordo da União para a Proteção das Obtenções Vegetais (UPOV), ou o estabelecimento do patenteamento de seres vivos (plantas e animais). A versão de 1991 da UPOV é, em linhas gerais, menos flexível que sua versão anterior e altamente restritiva em termos de acesso e transmissão de tecnologia. Essa versão do acordo estende os direitos da empresa criadora de novas variedades vegetais e sementes geneticamente modificadas para variedades que derivam da primeira, sendo impossível seu armazenamento, seu compartilhamento e seu reuso. Essas são práticas comuns à agricultura familiar e às iniciativas de adaptação e melhoramento local (STEIN, 2005). Muito embora não seja mais possível aderir à convenção de 1978, os países têm autonomia para elaborar normas de proteção de variedades vegetais baseadas no seu texto, conforme o próprio TRIPS assegura.

De forma ilustrativa, aponta-se, no quadro 1, alguns dos elementos TRIPS-plus mais relevantes existentes na proposta mais recente do capítulo de PI do TPP e alguns dos Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 83 eventuais impactos derivados (WIKILEAKS, 2015). É importante ressaltar que os elementos que aparecem de forma mais recorrente nos acordos assinados pelos EUA se manifestam nessa negociação corrente.

Quadro 1. Elementos TRIPS-plus mais recentes no capítulo de PI e seus impactos

Normas Propostas Conteúdo específico Possíveis impactos
Art. 1, Seção E Equivalência entre critérios para concessão de patentes. Liberalização dos critérios de concessão; Menor capacidade de limitação aos direitos privados.
Art. XX, Seção E Extensão no termo de proteção de patentes. Limitação do acesso ao conhecimento divulgado pelo público.
Art. 3, Seção E Ampliação do escopo de tecnologias elegíveis ao patenteamento. Diminuição das flexibilidades asseguradas pelo TRIPS; Aumento dos encargos com a proteção de direitos privados
Art. 6:4, Seção A Adesão à UPOV 1991. Proibição do armazenamento e reuso de sementes geneticamente modificadas.
Art. 8, Seção E Restrição do conteúdo divulgado para concessão de patentes. Limitação do acesso de outros inovadores ao conhecimento; Omissão de componentes protegidos por conhecimento tradicional.
Art. 16, Seção E Proteção a dados de teste Aumento de custos para a produção de genéricos; Redução da oferta de medicamentos acessíveis.
Art. 7:2, Seção H Enforcement de punições criminais para falsificações em direitos autorais e marcas comerciais Extensão das atividades consideradas criminosas; Aumento dos encargos com a proteção de direitos privados.

Fonte: Elaboração do autor

Além dos efeitos sentidos diretamente sobre o policy space de países signatários de acordos contendo cláusulas TRIPS-plus, a própria disseminação de negociações em instâncias de menor abrangência é elemento que merece atenção por também impactar os interesses de países em desenvolvimento. A disseminação desse tipo de acordo, em um contexto político e institucional em que as normas elementares que ordenam o regime internacional de proteção à PI estão baseadas em um acordo e uma organização multilateral, tem como consequência o risco de esvaziamento dessa instância de negociações. É em âmbito multilateral que os países em desenvolvimento buscam avançar com suas principais demandas voltadas ao reordenamento das normas internacionais de proteção à PI. Nesse sentido, a fragmentação do regime multilateral de PI e o esvaziamento Normas Propostas Conteúdo específico Possíveis impactos Art. 1, Seção E Equivalência entre critérios para concessão de patentes. Liberalização dos critérios de concessão; Menor capacidade de limitação aos direitos privados. Art. XX, Seção E Extensão no termo de proteção de patentes. Limitação do acesso ao conhecimento divulgado pelo público. Art. 3, Seção E Ampliação do escopo de tecnologias elegíveis ao patenteamento. Diminuição das flexibilidades asseguradas pelo TRIPS; Aumento dos encargos com a proteção de direitos privados. Art. 6:4, Seção A Adesão à UPOV 1991. Proibição do armazenamento e reuso de sementes geneticamente modificadas. Art. 8, Seção E Restrição do conteúdo divulgado para concessão de patentes. Limitação do acesso de outros inovadores ao conhecimento; Omissão de componentes protegidos por conhecimento tradicional. Art. 16, Seção E Proteção a dados de teste. Aumento de custos para a produção de genéricos; Redução da oferta de medicamentos acessíveis. Art. 7:2, Seção H Enforcement de punições criminais para falsificações em direitos autorais e marcas comerciais. Extensão das atividades consideradas criminosas; Aumento dos encargos com a proteção de direitos privados. Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 84 de suas instituições podem limitar seriamente a agenda por flexibilidades desse conjunto de países.

Diferentemente da forma horizontal, o forum shifting vertical é retratado como uma resposta ao esgotamento das negociações em âmbito multilateral. A migração das negociações para instâncias preferenciais ajudaria a conformação de um tipo alternativo de regime, fragmentado, ao invés de um multilateralismo baseado em organizações internacionais de grande abrangência, com mandatos precisos e com maior nível de autoridade delegada. Essa possibilidade aberta com a proliferação de acordos geograficamente restritos ou mesmo com a negociação de acordos ditos “funcionalistas”, voltados para temáticas restritamente definidas, como era o caso do ACTA, beneficiariam sobremaneira a agenda de países desenvolvidos. A assimetria de poder em negociações bilaterais, especialmente com países de menor desenvolvimento, seria capaz de arregimentar essas economias mais frágeis. E a negociação com parceiros específicos, assim como a fragmentação temática das negociações, limitaria a formulação de coalizões cross-issue por parte dos países em desenvolvimento, como forma de possibilitar que entrem em consonância para aumentar seu poder de barganha frente aos países desenvolvidos (BENVENISTI: DOWNS, 2007).

Apesar de ser clara a vantagem dos países desenvolvidos em um contexto como o acima descrito, a realidade da dinâmica do regime de PI não parece autorizar uma interpretação que assegure a predominância das negociações preferenciais na agenda estadunidense. O recurso dos EUA à estratégia de forum shifting vertical é a resposta a cenários desfavoráveis no âmbito multilateral – não obstante, optem por privilegiar esse sistema nas negociações mais importantes, como fora o caso das agendas da OMPI. Ou seja, a transferência dessas negociações para arenas de menor escopo e abrangência, envolvendo especialmente países like-minded e menos desenvolvidos, mostra-se muito mais como uma alternativa sub-ótima ao multilateralismo do que uma estratégia autônoma e efetivamente condizente com as demandas mais amplas dos EUA (HELFER, 2004; SELL, 2003).

Com efeito, os fóruns preferenciais permitem que se negociem acordos mais profundos e ambiciosos, uma vez que excluem os países opositores e dialogam apenas com partes interessadas – ou, em alguns casos, contrapartes sem grande capacidade técnica e mesmo interesse na matéria. Essa espécie de country club (YU, 2011), porém, apresenta uma contradição elementar: sua maior vantagem, isto é, negociar cláusulas TRIPS-plus, acaba por ser a sua principal limitação. Isso se deve à necessária exclusão dos principais Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 85 opositores desse tipo de normas. A única forma de superar essa contradição seria, exatamente, a “multilateralização” das negociações realizadas preferencialmente, o que proporcionaria a assimilação das matérias negociadas pelos países em desenvolvimento, garantindo a abrangência necessária, a efetividade e a legitimidade do novo regime. Sendo assim, os próprios limites da estratégia de forum shifting antes reafirmam a importância do regime multilateral do que o descartam (YU, 2011).

O risco inerente à estratégia de forum shifting vertical, contudo, está na polarização entre duas posições antagônicas. De um lado, os países desenvolvidos, em especial os EUA, sua agenda maximalista e sua opção estratégica por acordos preferenciais e, de outro, países em desenvolvimento que pretendem aprofundar as discussões sobre flexibilidades a direitos em âmbito multilateral. Essa contraposição levaria a um impasse real, em que os fóruns podem efetivamente se mostrar esvaziados e o sistema multilateral, com capacidade decisória e normativa mais ampla, significativamente perder sua capacidade de construção de uma agenda minimamente harmônica (DE BIÈVRE, THOMANN, 2010; YU, 2012; YU, 2013).

Tendo em vista as limitações da estratégia de forum shifting vertical, essa fragmentação do regime multilateral seria tanto danosa aos interesses dos países desenvolvidos, na medida em que o fim fundamental da agenda maximalista é sua ampliação geográfica, como aos interesses dos países em desenvolvimento. Entretanto, para esses últimos, os impactos negativos são muito mais amplos, tendo em vista que as demandas específicas desses países para a consolidação e ampliação das flexibilidades do TRIPS somente podem dar-se em um ordenamento jurídico multilateral.

Conclusão

Ao se analisar a agenda maximalista de PI dos EUA, percebe-se que um dos eixos estratégicos foi a negociação de acordos preferenciais de comércio contendo capítulos específicos de PI com padrão de proteção TRIPS-plus. Por meio desses acordos, os EUA aumentaram o escopo da proteção dos direitos de PI, estabelecendo um padrão internacional mais rígido do que o disposto multilateralmente a partir da adoção do TRIPS. A negociação e a implementação do TRIPS produziu uma harmonização de regras substantivas sobre a matéria, estabelecendo padrões mínimos obrigatórios aos países membros da OMC. Entretanto, no texto do acordo estavam ainda elencadas algumas flexibilizações para os países adequarem seus sistemas nacionais de proteção. Essas Revista de Estudos Internacionais (REI), ISSN 2236-4811, Vol. 6 (1), 2015 86 flexibilidades são o alvo das negociações conduzidas pelos EUA após a adoção desse acordo.

A proliferação de acordos preferenciais de comércio acabaria por constituir uma importante via utilizada pelos EUA para elevarem o patamar mínimo estabelecido multilateralmente. Esse processo de negociação de acordos preferenciais afetou, de um lado, as pequenas liberdades que países detinham para definir, de forma autônoma, seus sistemas de proteção, além de impor restrições a determinadas políticas públicas em áreas sensíveis, como saúde e desenvolvimento agrícola. Ou seja, essas cláusulas limitam a capacidade de os países fazerem uso das flexibilidades do TRIPS e, assim, atenderem suas demandas de interesse público. De outro lado, a opção estratégica por avançar com essa agenda maximalista em instâncias de menor abrangência produz, ao mesmo tempo, o risco de esvaziamento das instâncias multilaterais, em que países em desenvolvimento apresentam suas principais demandas por flexibilidades em matéria de proteção à PI.

Brinquedo inovador de Santa Catarina do tipo exportação

O catarinense Marlon Souza, 44 anos, tem uma história inspiradora, cheia de reviravoltas e inovação. Um pouco ao estilo da PlayTable, mesa digital com jogos educativos que ele criou e que hoje já faz parte da vida de cerca de 200 mil estudantes pelo país. A trajetória de Souza começou quando ele, natural de Blumenau e estudante de Processamento de Dados na Etevi, começou a trabalhar, aos 14 anos de idade, como estagiário no Cetil, referência na área de tecnologia na cidade.

Ele começou como assistente administrativo no Cetil da Rua das Palmeiras com a função de formatar disquetes. Souza colocava todos os computadores para executar esta função enquanto ele utilizava outra máquina para estudar programação. Foi nesta “atividade paralela” que ele teve a ideia de desenvolver um programa de mala direta para as secretárias do Cetil, ajudando elas a produzir etiquetas padronizadas para as correspondências. Quando o proprietário do Cetil viu os envelopes com as etiquetas e descobriu que o programa utilizado pelas secretárias era “obra” do estagiário, Souza foi promovido ao cargo de programador no Cetil Sistemas.

Quando terminou o ensino médio, aos 17 anos de idade, Souza já era analista de sistemas. Nesta função ele foi trabalhar na Teka, tradicional indústria têxtil do Estado, onde ele ficou por um ano. “Eu tinha 19 anos quando comecei a fazer programas por fora, por conta própria, e quando montei o meu primeiro negócio”, recorda. Mergulhado em novos conhecimentos envolvendo CorelDraw e Photoshop, pelos quais ele ficou apaixonado, Souza deixou a faculdade de Ciências da Computação quando estava no sétimo semestre para fazer Publicidade e Propaganda.

A primeira empresa que ele criou, no início dos anos 1990, foi o bureau Top Solution que, depois, resultaria na agência de propaganda Step Comunicações. Em 1996 ele lançou a primeira agência digital do Estado, a Sollo Interactive, que fez o primeiro site de uma indústria têxtil do país, o da Sulfabril. Com esta agência ele produziu também sites para a Hering, o Beto Carreiro e para outras companhias. “Fiquei de 1996 até 1999 com essa empresa. Daí eu fui chamado para a maior loucura da minha vida”, define.

O empreendedor ainda não sabia, mas naquele ano ele começaria uma longa trajetória longe de casa. Como na época poucas pessoas trabalhavam com internet no Brasil, Souza participava de uma lista de discussão com profissionais da área. Foi assim que ele ficou sabendo do surgimento de uma grande agência digital no país, a Agenciaclick. Após publicar um comentário no site da agência se apresentando e propondo parceria, Souza foi chamado para uma reunião em São Paulo. Saiu dela contratado para liderar o time de desenvolvimento do primeiro serviço de internet grátis do país, lançado pelo IG, e ganhando o dobro do salário que recebia na época.

Ele se mudou para São Paulo em novembro de 1999 com o desafio de, junto com a equipe formada pela Agenciaclick, lançar o serviço e o site do IG em maio do ano 2000. “Mas em dezembro descobrimos que o Bradesco ia lançar em março um serviço de internet grátis para os seus clientes. A gente tinha que lançar o nosso serviço antes deles, em fevereiro. Foi insano, porque eu trabalhava 20 horas por dia. Transformamos nada em uma empresa de 300 funcionários”, recorda.

Depois de um ano e meio na agência e com o estouro da bolha da internet em 2001, Souza viu o projeto do IG ser assumido por uma equipe interna e ele ser convidado a assumir um projeto em Brasília. “Eu estava um ano e meio sem vir para casa direito. Vinha para Blumenau, onde a minha mulher tinha ficado, a cada mês e meio. Vivia de hambúrguer e milk shake. Então decidi tirar férias, um ano sabático, e fiquei este ano em Nova York”, conta.

Ele estava lá e viu pessoalmente as torres do World Trade Center serem derrubadas no ataque de 11 de setembro de 2001. “Aquele foi um dia maluco. Só estando lá para ter uma ideia do que foi aquilo. A minha ideia era ficar trabalhando em Nova York, mas os Estados Unidos suspenderam as emissões de vistos e eu não consegui tirar o meu visto de trabalho, então voltei para o Brasil”, explica. No retorno, Souza voltou a morar em São Paulo, onde trabalhou entre os anos 2002 e 2005 em consultorias para projetos como o primeiro site de venda de automóveis pela internet, criado para a GM, e para outros projetos para a Porto Seguro e a WEG.

Sedento para voltar para Santa Catarina, Souza retornou para fazer uma consultoria para a Bunge, onde desenvolveria o portal corporativo da empresa. Mas ele não ficou muito tempo na unidade catarinense, logo sendo mandado para Porto Alegre. “Como eu tinha experiência em inglês, fui tocar projetos internacionais da Bunge que ficavam em Porto Alegre”, explica. Depois de dois anos na capital gaúcha, Souza finalmente conseguiu retornar para Blumenau em 2007, quando foi trabalhar em um projeto da Ambev como funcionário da HB.SIS.

Até que em 2009 ele resolveu voltar a investir em um negócio próprio. Foi naquele ano que Souza pegou o dinheiro que ele tinha economizado até então e investiu na Morphy, empresa criada pelo irmão dele três anos antes. “Transformamos a Morphy de uma empresa de duas pessoas, meu irmão e um outro funcionário, em uma empresa de 60 pessoas. Em 2012, quando a gente fez a PlayTable, atendíamos a todo o mercado, inclusive com projetos internacionais”, conta.

Foi nesta fase da movimentada carreira de Souza que ele descobriu que queria fazer produtos inovadores. “Dentro da Morphy eu desenvolvia projetos legais para tudo que era empresa, mas eu percebia que os projetos morriam porque não eram um produto. Era uma frustração porque eu queria criar alguma coisa mais duradoura”, comenta. Foi assim que ele começou a investir em alguns produtos, como uma solução para mobilidade, um guia de cerveja e um totem para fazer fotos até que surgiu a ideia da mesa digital PlayTable. “Esse era o produto que eu estava procurando, porque é um produto para um segmento, que é o infantil, voltado para a educação, que tem escalabilidade e que envolve hardware e software”, define.

Em 2013, quando encontrou um antigo amigo de colégio que atuava com brinquedos educativos, Jean Gonçalves, Souza decidiu apostar todas as fichas na PlayTable e deixou a sociedade na Morphy. Foi assim que Souza e Gonçalvez criaram a Playmove e, no início do ano de 2014, lançaram a série 1 da PlayTable na Campus Party. A partir daí, a trajetória de sucesso da empresa e da mesa digital com jogos educativos não parou mais. Neste ano, a PlayTable foi destaque de duas feiras que são referência na área, uma na cidade alemã de Nuremberg e a outra nos Estados Unidos. Em fase de internacionalização e de ampliação de negócios no Brasil, a Playmove está pronta para decolar. Confira, a seguir, a entrevista feita com Souza, sócio e diretor executivo da empresa de Blumenau:

O catarinense Marlon Souza, fundador da Playmove, mostra a mesa digital PlayTable, considerado um dos brinquedos mais inovadores do mundo - Divulgação/ND
O catarinense Marlon Souza, fundador da Playmove, mostra a mesa digital PlayTable, considerado um dos brinquedos mais inovadores do mundo pela curadoria da feira internacional de Nuremberg, na Alemanha – Divulgação/ND

Alessandra Ogeda – Quando surgiu a Playmove? Em quanto tempo a empresa lançou a primeira versão da PlayTable?

Marlon Souza – Na verdade essa história está invertida. O que surgiu primeiro foi a mesa, o produto PlayTable, e depois a gente sentiu a necessidade de criar uma empresa para ela. A PlayTable nasceu dentro de um outro negócio que eu tinha, uma empresa chamada Morphy. Essa empresa era meio que uma incubadora de ideias. Dela surgiram vários produtos e até duas empresas diferentes, tanto que a Morphy já não está mais tanto na ativa. Esses dois negócios (que surgiram na empresa) cresceram mais que a Morphy. Um deles é a Playmove. Mas a Morphy era uma empresa que fazia o desenvolvimento de soluções de tecnologia, de inovação para o segmento de feiras, eventos, ativação em pontos de venda, aplicativos mobile, então ela sempre teve muito esse viés da inovação.

Alessandra Ogeda – Quando foi criada a Morphy e quando, dentro dela, surgiu a PlayTable?

Marlon Souza – A Morphy é uma empresa de 2006. Eu entrei de sócio na Morphy em 2009. Eu comprei uma participação bem grande do negócio em 2009, quando eu saí de uma outra empresa onde eu trabalhava, e desde então a gente veio bem com esse viés de inovação. Um dos trabalhos que teve bastante destaque na mídia naquela época, em 2010 ou 2011, foi que a gente construiu um piano no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo, que tocava com os pés usando o Kinect, o reconhecimento de gesto. Então era uma coisa que não se fazia no Brasil, reconhecimento de gestos, realidade virtual, realidade aumentada, essas eram todas tecnologias com as quais a gente trabalhava muito dentro da Morphy. E, entre estas tecnologias, a gente começou a usar muito em feiras e eventos a questão da tela de toque, que também era uma novidade no Brasil. Apesar de terem os telefones, você usar tela de toque em ambientes, em pontos de venda, eram coisas bem distantes da nossa realidade.

Alessandra Ogeda – O diferencial desta tecnologia, diferente da tela de um smartphone, é que ela permite o uso simultâneo por um grupo de pessoas, não é mesmo? O que incentiva a interação.

Marlon Souza – Exatamente. E integrado ao ambiente. Porque o celular é uma coisa muito pessoal, você usa na sua mão, o que a gente propunha na época e depois os próprios canais de TV vieram a adotar é essa coisa da tela de toque integrada ao ambiente. Então a gente chegou a criar espelhos com tela de toque, a gente criou várias coisas muito diferenciadas e de tanto utilizar essa tecnologia a gente meio que se apropriou e começou a criar produtos. Então um dos primeiros produtos que a gente criou e que depois virou uma febre no Brasil foi aqueles totens para você tirar foto em eventos. Então você tinha um totem, a pessoa tocava na tela e ele te fotografava e aquela foto ia para a internet, para o Facebook, etc. A gente fez isso lá em 2010. Chamava PlayPhoto na época. Fez um grande sucesso e depois a gente acabou descontinuando esse produto porque ele virou meio commodity. E de tanto criar produto, a gente viu que havia uma demanda no mercado por um produto com esta tecnologia mas voltado para o mercado infantil, que era justamente para espaços públicos que tinham a presença da crianças mas que a criança não queria mais brincar com aquela mesinha de lápis e giz e papel que estava em um canto. Aquilo não atraia mais as crianças, que estavam todas usando os celulares dos pais ou tablets, todas elas brincando com as suas próprias mesas.

Alessandra Ogeda – Típico perfil de crianças tecnológicas.

Marlon Souza – É, essa é a nova geração. Então a gente percebia que tinha essa diferença entre o que os ambientes estavam oferecendo de entretenimento e o que a criança esperava de entretenimento. Inclusive o cerne dessa ideia (da PlayTable) surgiu em um restaurante. Eu estava com a minha esposa e o meu filho pequeno em um restaurante e a gente percebeu que a mesa do lado estava usando um tablet e o meu filho também estava usando um tablet e crianças vinham ao nosso redor porque elas não estavam muito acostumadas com um tablet naquela época, em 2011. E aí todas as crianças queriam brincar com o tablet do meu filho e do filho da mesa do lado. Aí a gente percebeu que tinha um mercado para essas crianças e começamos a fazer experiências, experimentos, e fizemos a primeira versão da PlayTable em 2012. Ela nasceu como um produto de verdade naquele ano. A gente usou 2011 para estudar e em 2012 a gente lançou como produto. E aí começamos a fazer, ainda dentro da Morphy, um trabalho de vender para alguns espaços, de alugar para outros espaços, de colocar muito em feiras e eventos. A gente vendeu, por exemplo, para showroom de empreendimentos imobiliários, para showroom de concessionária de carros, a gente vendeu muito focado no entretenimento.

Alessandra Ogeda – Naquela época então a PlayTable não tinha ainda a pegada educativa que ela tem hoje?

Marlon Souza – Desde o início a gente teve uma preocupação muito grande com a qualidade dos jogos e para que eles não fossem jogos agressivos, que não tivessem violência, que não tivessem nada muito nesse sentido porque a gente sabia que o público que ia usar esse produto era muito variado. Eram crianças de três a quatro anos até crianças de nove ou 10 anos (de idade). Então a gente procurou fazer jogos que fossem interessantes para todos esses públicos e que não fossem jogos que tivessem alguma limitação, que os pais não gostassem que eles (filhos) jogassem. Mas eles ainda não tinham essa pegada educativa como a PlayTable tem hoje. Então o que aconteceu? A gente ficou de 2012 a 2013 trabalhando muito focados nesse segmento de entretenimento. Em 2013 eu comecei a perceber que o mercado de educação tinha espaço para esse nosso produto, só que era um mercado em que eu, pessoalmente, não atuava.

Alessandra Ogeda – O teu mercado não era o da educação, mas da tecnologia, correto?

Marlon Souza – O meu mercado sempre foi o mercado de tecnologia, de vendas B2B, eu vendia para a Portobello, para a WEG, para Ford, para clientes desse nível mas eu não tinha relação com o público de escolas. Então eu precisava achar uma forma de chegar neste mercado. E aí uma coincidência muito grande, eu estava atendendo a Portobello em Florianópolis e na recepção do prédio deles estava um antigo amigo de infância, que a gente não se via há muitos anos. Fazia uns 30 anos que a gente não se via porque eu fui para um lado e ele foi para o outro. A gente se encontrou nessa recepção e começamos a conversar e ele falando o que ele fazia e eu falando o que eu fazia e, nisso, eu descobri que ele tinha uma fábrica de brinquedos educativos e eu tinha um produto de tecnologia que eu queria vender para a educação. Então a gente começou a trocar figurinhas e resolvemos marcar um segundo encontro para eu apresentar para ele o produto que eu tinha.

Alessandra Ogeda – Nessa fase inicial da PlayTable, entre 2012 e 2013, era a tua própria empresa, a Morphy, que desenvolvia os jogos para o produto ou vocês tinham parcerias com outras empresas?

Marlon Souza – Nesse primeiro momento a gente ainda desenvolvia tudo internamente. Como a Morphy tinha essa expertise, ela desenvolvia jogos para celular, desenvolvia jogos para clientes para totens e tudo o mais, a gente acabou usando a nossa expertise interna para desenvolver estes jogos da PlayTable. Então a gente tinha cerca de cinco a seis jogos focados nessa questão do entretenimento educativo. Alguns desses jogos existem até hoje. Claro que eles receberam uma roupagem nova, foram reescritos e tudo o mais, mas o conceito ainda está lá. Mas a gente ainda não tinha essa pegada 100% de educação e até de parceiros que a gente tem hoje.

Alessandra Ogeda – O que aconteceu quando você e o teu amigo de infância se encontraram pela segunda vez para falar sobre a PlayTable?

Marlon Souza – O Jean (Gonçalves) se apaixonou pelo produto porque ele disse que tinha um mercado de educação que ele já explorava há vários anos, que ele tinha revendedores no Brasil inteiro que atendiam prefeituras e que atendiam o segmento privado sempre na área de educação vendendo os produtos que ele fabricava. Então a gente resolveu fazer meio que uma joint venture. Vamos fazer o seguinte: a Morphy desenvolve o produto e a empresa dele, que é a Brinquelonas, revende o produto para este segmento. A gente meio que começou assim. Como a gente tinha também uma experiência de produção, a gente falou “Nós vamos fazer o software e você monta o produto físico e a gente revende”. Isso durou cerca de dois meses. Porque a gente começou a se envolver tanto no projeto da nova PlayTable que, isso foi em meados de 2013, acho que em maio e em junho daquele ano, e em julho e agosto a gente viu que precisávamos montar uma empresa só para fazer isso porque eu estava usando recursos da Morphy, ele estava usando recursos da empresa dele e a gente estava cada vez mais enfiado no projeto, os dois. Então concluímos que a gente precisava montar uma empresa e aí surgiu a Playmove, onde nós dois entramos de sócio em uma terceira empresa. Por isso que eu falei que o produto deu origem à empresa Playmove.

Alessandra Ogeda – A decisão de vocês criarem uma empresa para trabalhar apenas com a PlayTable é por que vocês viram que este produto e tecnologia tinham um potencial muito grande?

Marlon Souza – Foi. Quando nós mergulhamos no negócio da educação e começamos a testar o produto que nós tínhamos ainda… porque a PlayTable, até aquele momento, ainda tinha uma estrutura de madeira, a gente fazia ele quase que artesanalmente. A mesa era construída artesanalmente por marceneiro e existia a montagem do computador dentro dessa mesa. Quando a gente pegou esse produto, que era quase um protótipo, e levou para dentro de algumas escolas para começar a testar, a reação era absurda. Os professores ficavam enlouquecidos, os alunos não queriam mais sair da mesa, então a gente começou a perceber que havia um mercado e uma demanda muito reprimida para esse tipo de produto. Eu até lembrei de uma frase do Steve Jobs da época, que ele falou “O usuário não sabe o que ele quer até que a gente mostre para ele o que a gente criou”. Eu me sentia um pouco com essa sensação. Porque se eu falasse para alguém anos antes “Olha, você vai precisar de uma mesa digital com jogos educativos”, a pessoa iria dizer “O que é isso? Você está maluco, eu nem sei do que você está falando”. Quando a gente mostrava o produto, as pessoas identificavam na hora. Quer dizer, estava lá aquela demanda e a pessoa não sabia que precisava daquilo.

Alessandra Ogeda – O Steve Jobs é um exemplo de como uma tecnologia disruptiva, quando encontra o momento do mercado certo, decola. Isso também aconteceu com vocês, que lançaram no momento certo a tecnologia da PlayTable, não?

Marlon Souza – É. A gente pegou até uma geração, que é essa nativa digital, que quando a gente começou a apresentar o produto em 2013 e 2014 era um geração que estava aí com 10 anos, oito ou seis anos (de idade) e que já era 100% digital. Uma geração que sempre viveu dentro da internet, que já estava acostumada com os celulares, que já conhecia a tela de toque, então precisava daquele produto. Então quando a gente notou que tinha essa demanda reprimida e quando nós apresentamos, especialmente, para os revendedores que já trabalhavam com o Jean na outra empresa e que conheciam o mercado de educação, eles ficaram enlouquecidos. Eles falaram “Eu quero vender esse produto. Vamos evoluir com esse produto” e tudo o mais. Aí apostamos no desenvolvimento deste produto. Passamos o ano de 2013, especialmente o segundo semestre inteiro desenvolvendo o molde, construíndo a parte da estrutura plástica, testando qual era o melhor computador para colocar ali, reescrevendo todo o software e tudo o mais, e resolvemos lançar em um evento em que a gente pudesse, efetivamente, testar se a tecnologia era válida. Pensamos “Puxa, se for para a gente dar a cara para bater, vamos dar a cara para bater em um lugar em que vai estar todo mundo que pode nos criticar”. Então a gente foi para a Campus Party em 2014 e lançamos o produto lá dentro de uma área de empreendedores, de startups da Campus Party.

Alessandra Ogeda – Vocês foram para uma das principais vitrines de tecnologia do país. Qual foi a receptividade do produto de vocês na Campus Party?

Marlon Souza – A nossa reação foi ainda mais incrível porque a gente ganhou mídia nacional e internacional e todo mundo só falava do nosso produto. As pessoas que viram lá, todo mundo queria representar e revender. Então foi para nós um momento de muita surpresa, porque a gente não estava nem preparado para ir para o mercado ainda. A gente foi para a feira em janeiro, mas a nossa previsão de lançar o produto era o segundo semestre de 2014. A gente imaginou que precisaria de pelo menos um ano para estar com a nossa linha de produção redonda e tudo o mais, e a gente saiu da feira praticamente com uma quantidade grande de pedidos. Tanto que quando a gente começou a poder entregar o produto, que foi em maio de 2014, a gente já tinha 600 PlayTable em pedido.

Alessandra Ogeda – Basicamente pedidos de escolas ou qual era o perfil destas primeiras encomendas?

Marlon Souza – Os nossos revendedores começaram a ir para campo e começaram a (fazer contratos) com prefeituras, escolas, principalmente com o segmento público, que começou a descobrir o nosso produto e querer a PlayTable. Então desde que a gente lançou em janeiro até março ou abril começaram a pipocar editais (para a compra da PlayTable) em vários lugares para comprar o nosso produto. Então saíram 50 aqui, 50 lá, 100 em outro lugar, e o negócio começou a pipocar. O primeiro lugar que comprou PlayTable do segmento foi Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Alessandra Ogeda – Esse começo das vendas com 600 pedidos antes mesmo da empresa realmente conseguir produzir em larga escala representou quanto tempo de vendas para vocês?

Marlon Souza – Na época isso era bastante para a gente, realmente. Porque nós ainda não tínhamos uma linha de produção. A gente estava trabalhando dentro da casa onde o Jean tinha a outra empresa. Ele tinha a empresa dele nos fundos dessa casa, que era um galpão, e na parte da frente tinha um espaço vago, que era um escritório dele e onde acabamos montando a estrutura da Playmove ali porque a gente imaginou que precisaria de pouco espaço. A gente achou que iria produzir poucas mesas por mês, porque iríamos demorar para engrenar. Quando a gente viu, tínhamos tirado três funcionários dele que estavam na casa, levado para o galpão e tinha dominado a casa inteira, produzindo mesas em tudo que era lado porque a gente começou a entrar em uma linha de produção sem parar.

Alessandra Ogeda – Nesse início vocês tinham mais pedidos do que o que vocês conseguiam produzir. No primeiro mês de produção vocês conseguiram fazer quantas PlayTables?

Marlon Souza – A gente fez uma primeira entrega de 100 PlayTables, que foi essa para Mossoró. O edital deles era de 100 PlayTables que a gente entregou em maio de 2014. Depois a gente começou a ter alguns pedidos e fizemos entregas de 50, depois de 20, e chegamos fazer uma entrega no final de 2014 de 200 PlayTables de uma única vez. Para isso a gente ficou trabalhando um mês inteiro.

Alessandra Ogeda – Então por causa do sucesso do lançamento na Campus Party vocês tiveram que antecipar o lançamento da PlayTable?

Marlon Souza – Na verdade isso empatou com o nosso projeto porque a gente foi para a Campus Party ainda com um protótipo do produto. A gente não estava nem com o molde 100% fechado, a gente tinha rodado um flyer do molde para ir para a feira e não tinha nem validado o molde final, então a gente teve que acelerar o desenvolvimento do molde, formar uma rede de fornecedores para comprar todos os componentes em escala, porque no começo a gente ainda estava comprando em varejo. A gente comprava e produzia. Depois não, teve que ter componente de placa, componente de monitor, a gente teve que ter fornecedor de cada um destes componentes e aí a gente começou realmente a montar toda a estrutura de empresa. Dividir em departamentos, área de compras, área de logística, área de produção, começamos a montar toda a estrutura a toque de caixa, no conceito de startup mesmo. Foi um negócio que em meses montamos uma empresa que precisava de um ano.

Alessandra Ogeda – Desde o lançamento da primeira PlayTable, aquela que originou o negócio, quantas versões a mesa digital já teve?

Marlon Souza – Tivemos o modelo zero, anterior a esse modelo de 2014 que a gente chama de série 1, o S1. Esse modelo S1, a gente tem algumas subversões dele. A gente não tem versões novas, mas evoluímos um pouco o hardware, então a placa que a gente tinha no início era uma placa com menos capacidade da que a gente tem hoje. A gente começou a PlayTable com 16 GB de HD, hoje a gente tem 64 GB de HD e até tem versão com 120 GB. A gente tem uma tela de toque mais precisa, aquela inicial tinha dois toques, a nossa atual tem seis toques. Então a gente foi evoluindo componentes dentro do nosso produto, mas sempre com a preocupação que o software continuasse válido para as versões anteriores. Então a gente foi fazendo evoluções, então temos seis subversões diferentes no nosso histórico, cada uma delas com um componente ou algum conjunto de componentes que são um pouco diferentes do anterior.

Alessandra Ogeda – Normalmente vocês tem um conjunto de componentes que são um avanço da versão anterior?

Marlon Souza – Isso. A gente trocou placa, trocou frame e tudo o mais. Aí quando a gente lança um jogo ou mesmo quando a gente faz esse tipo de mudança de componente a gente vai e testa todos os jogos nessa nova PlayTable assim como quando lançamos um jogo novo a gente testa em todas as versões antigas.

Alessandra Ogeda – Então alguém que tenha comprado uma PlayTable em 2014 e não comprou por uma nova versão do produto depois vai conseguir rodar um jogo novo que vocês lancem em 2017?

Marlon Souza – Roda naquela versão. Obviamente, e é preciso deixar uma coisa clara, é como você pegar um iPhone 7 e um iPhone 4S. Todos eles rodam a mesma versão do iOS, a Apple garante que o iOS 10 está rodando no 4S, os aplicativos vão rodar e tudo o mais, mas se você rodar no 7 e depois colocar comparativamente no 4S vai ver que demora muito mais. Quando você estava usando o 4S você não percebia essa diferença, mas quando você compara com o novo você vê certa diferença. Então obviamente se você colocar duas PlayTables, uma que a gente vendeu hoje e uma que a gente vendeu em 2014, o jogo vai rodar com alguma diferençazinha de performance, mas como a pessoa (que usa o de) 2014 não vai ter essa comparação, para ele os jogos vão continuar funcionando como os jogos estavam funcionando na época. Os novos jogos vão rodar na mesa dele como ele está acostumado a rodar. Hoje nós estamos trabalhando em uma versão um pouquinho mais disruptiva.

Alessandra Ogeda – O que esta nova versão terá de diferente da anterior?

Marlon Souza – A gente está trabalhando no que a gente chama de PlayTable Série 2, que vai vir com uma nova tecnologia de toque, que já vão ser 10 toques, uma tecnologia capacitiva, com muito mais precisão, a gente está mudando o processador dela, a gente está fazendo mudanças no som, então a cara dela vai permanecer igual, mas em termos de processamento e de velocidade de uso vai melhorar muito para quem comprar a partir de maio, quando a gente quer lançar essa versão.

Alessandra Ogeda – As mudanças feitas na PlayTable até hoje foram de hardware e software. A estrutura física de plástico que comporta o hardware não foi alterada desde a versão de 2014?

Marlon Souza – Não mudou propositalmente. Essa foi uma das coisas que a gente mais trabalhou durante o período de migração do modelo de madeira e o próximo modelo, ou seja, da Série 0 para a Série 1. Porque a gente queria um produto que as crianças olhassem e identificassem como um brinquedo. Todos os nossos concorrentes na época e a gente pode citar, por exemplo, a Smart, que é do Canadá, que era um produto importado, e até o que a Positivo estava começando a trazer na época, eles tinham uma cara de computador. Eles tem cara de algo frágil, eles tem cara de algo para adulto. Então é aquela estrutura de plástico duro, com uma cor cinza ou uma cor preta, e a criança não se identifica com aquilo. Então começando com a cor, a PlayTable tem X cores diferentes: vermelho, amarelo, verde, rosa. Aí a criança já sabe. Segundo, é um material que a criança conhece. É o mesmo plástico que ela vai encontrar em qualquer playground do mundo. Feito com o mesmo material, praticamente inquebrável de parque de diversão. Hoje você vai em um balanço, em uma casinha destas de playground e você vai ter aquele plástico que a gente usa na PlayTable.

Alessandra Ogeda – É um produto resistente às crianças.

Marlon Souza – Então o produto é super resistente, é adequado para a criança. Você pode virar a PlayTable, pode subir nela, pode bater, ela não quebra. Obviamente a tela tem um nível de resistência que a gente testa, com um vidro à prova de quebra de quatro milímetros e tudo o mais, mas obviamente se você jogar um tijolo, ele vai quebrar. A gente diz que ele é resistente. O plástico tem uma estrutura interessante também porque ele deixa mais resistente para o hardware ficar dentro dele. Por ele não ser uma coisa rígida, sempre que eu bato no plástico, o que está dentro da mesa vibra. Ao fazer isso, ele não quebra porque não têm o atrito, não tem o impacto. O plástico absorve onde está o monitor, as placas, então com isso a gente transformou a PlayTable praticamente resistente à criança, como você disse. Isso foi algo que nós testamos muito, exaustivamente, (fizemos) vários modelos até a gente chegar neste plástico e nesse formato. Essa ergonomia que a PlayTable tem, tudo isso foi pensado.

Alessandra Ogeda – Neste sentido de ergonomia, quais são as características do produto?

Marlon Souza – Ela tem os cantos arredondados, ela tem entradas para a criança se posicionar mais próxima da tela. Ela tem espaços que são exatamente iguais nos quatro cantos, apesar do monitor ser horizontal, você tem a mesma proximidade em um canto do que se você estiver olhando para ela de frente. Então eu posso colocar quatro crianças brincando na PlayTable e as quatro vão estar na mesma distância da tela. Uma não precisa se esticar sobre a tela para poder alcançar. Então tudo isso foi pensado para garantir que o produto fosse 100% aderente à necessidade da criança.

Alessandra Ogeda – O que a diferencia a PlayTable de outros concorrentes do produto feitos fora do país?

Marlon Souza – Eu acho que tudo que eu te falei é commodity em relação ao grande segredo da PlayTable, que é o software. O que faz a PlayTable ser a PlayTable é a questão do ecossistema de aplicativos que a gente está construindo em cima dela. Hoje nós podemos comparar a PlayTable não com outras mesas digitais, mas a gente pode comparar a PlayTable com console de videogame. Nós costumamos dizer que a PlayTable é o Playstation, o Xbox, o Nintendo da educação. Porque nós temos um console de videogame no formato de uma mesa digital com tela de toque que aceita jogos de uso coletivo voltados unicamente para a educação. Então não existe concorrente no mundo que faça isso. Se você pegar a Sony, ela não faz isso com o Playstation. Você tem um conjunto de jogos para educação para o Playstation? Não tem. A Microsoft, que faz o Xbox, não tem. A Nintendo não tem. Mesmo os aplicativos dos devices como iPad e tablets Android não tem nada voltado 100% para a educação, apenas adaptações.

Alessandra Ogeda – Os consoles de videogame não tem essa preocupação educativa que comentaste. Mas no mundo não há outros fabricantes de mesas digitais educativas?

Marlon Souza – Se você me perguntasse isso há três meses eu te diria “talvez”. Hoje, quase 100% eu te digo “não tem”. Porque a gente estava na maior feira de brinquedos do mundo, com mais de 1 mil expositores em Nuremberg na Alemanha, todos eles só da área de tecnologia, e não tinha uma mesa igual à nossa. Não tem ninguém com uma proposta. Existe, e por isso eu te falo que o hardware é commodity… você vai encontrar na Coreia uma empresa que fabrica um hardware similar ao nosso, você vai encontrar em Portugal e no Canadá hardwares similares, você vai ter alguns, não muitos, talvez cinco ou seis no mundo que fabriquem hardwares similares, e tem uma única empresa que fornece softwares para estes caras. Então um conjunto de jogos 100% igual para todas elas (empresas). Um kit de 30 jogos que o cara baixa e vai ter um joguinho de quebra-cabeça, memória, cortar fruta, esses que já tem nos tablets. Você não tem nenhum destes fabricantes de hardware ou destas empresas de software que tenha um ecossistema de jogos de educação. Você tem estúdios criando jogos de educação, tem empresas fazendo hardware. A gente faz tudo em um único lugar. Esse é o grande diferencial.

Alessandra Ogeda – Desde o início vocês são uma empresa verticalizada, que produz absolutamente tudo da PlayTable, ou vocês já terceirizavam parte da produção?

Marlon Souza – Lá quando a gente começou a repensar a PlayTable e que ficamos tão encantados com o processo em que a gente tinha mergulhado, nós pensamos na questão pedagógica dos jogos, na questão criativa dos jogos, pensamos em toda essa questão do produto em si. Mas lá já nos veios a visão do console de educação. Lá atrás, naquele momento em 2013 a gente percebeu que não estávamos criando um hardware qualquer, que não estávamos criando jogos educativos para rodar em qualquer computador, mas sim que estávamos criando um ecossistema de jogos educativos. Então por isso que a gente tinha se preparado para lançar isso um ano depois. Porque a gente tinha muito trabalho de software para fazer. Hoje a gente não tem só o software que vai embarcado na PlayTable, que controla todos os jogos que estão instalados ali, que controla as atualizações de jogos, que gera ranking do uso de cada um dos jogos, gera estatística da evolução das crianças e tudo o mais, mas todo esse software tem um espelho na nuvem.

Alessandra Ogeda – O que esse recurso na nuvem oferece para a empresa e os usuários?

Marlon Souza – A gente tem um servidor que recebe todas essas informações, que verifica se a mesa que está lá conectada na internet tem atualizações para receber, se a pessoa comprou um jogo online ou pela nossa central de vendas se esse jogo já pode ser instalado na mesa, se tem conteúdo dessa mesa para ser compartilhado. A gente está criando uma cadeia de parceiros agora que vão se beneficiar desse conteúdo que as crianças e os professores geram. A gente tem todo um ecossistema mesmo de software pensado para conversar com este universo de PlayTables que a gente está disponibilizando pelo Brasil e pelo mundo. Então desde aquele momento a gente percebeu que isso era muito maior do que só nós. Nós tomamos o cuidado de produzir tudo durante muito tempo para garantir a qualidade do que a gente queria e até para o mercado entender o que a gente queria oferecer. Como quando a Sony lançou o Playstation, ela desenvolveu os primeiros jogos porque ela tinha que mostrar a qualidade que ela esperava daquilo.

Alessandra Ogeda – Vocês também adotaram essa postura de produzir tudo no início para dar uma sinalização do que queriam para o mercado?

Marlon Souza – Isso. Até o ano passado mais da metade do time da empresa era de desenvolvedores de jogos. Esse ano a gente inverteu isso. Essas pessoas viraram terceiros nossos, viraram parceiros, criaram os seus próprios estúdios. Porque nós estamos invertendo a nossa cadeia.

Alessandra Ogeda – Essa mudança está ocorrendo agora, em 2017?

Marlon Souza – Isso, em 2017. Essa mudança está no nosso planejamento para 2017 e já estamos executando isso. Na verdade, em 2015 a gente lançou a semente de parceiros. A gente escolheu alguns parceiros para desenvolver jogos até para afinar o nosso modelo de parcerias. Em 2016 a gente foi ampliando isso um pouco mais, e nós planejamos essa grande virada para 2017. Esse ano o nosso foco vai ser expandir drasticamente e de maneira geográfica e exponencial essa quantidade de parceiros. Hoje nós temos 30 jogos na PlayTable. A gente quer ter até o final de 2017 pelo menos 100 jogos dentro da PlayTable. A gente tem a ambição de 2018 de ter 500 jogos dentro da PlayTable. Nós estamos fazendo contatos com parceiros de estúdios de desenvolvimento de jogos do mundo inteiro para desenvolver conteúdo para a PlayTable.

Alessandra Ogeda – Como foi essa evolução da empresa em relação aos parceiros para o desenvolvimento de jogos?

Marlon Souza – Em 2015 a gente teve cerca de quatro ou cinco parceiros. Em 2016 a gente fechou com 11 para 12 parceiros e, agora, a gente já está chegando a 20 parceiros. Neste grupo, temos uma empresa que desenvolveu jogos para a gente em Portugal. A gente está fechando um contrato com uma empresa da Finlândia que tem um conjunto de jogos que vamos importar. Nesta semana (semana passada) fechamos um contrato verbal e vamos assinar o contrato na próxima semana com uma empresa dos Estados Unidos que tem um conjunto gigante de jogos para educação e que já é muito forte nos Estados Unidos e que vai importar cerca de 30 jogos direto para a PlayTable. A gente está negociando vários outros parceiros da Europa, que também tem interesse, e vários estúdios do Brasil que estão desenvolvendo. Tem estúdios que estão desenvolvendo exclusivamente para nós, hoje. Temos pelo menos três estúdios que desenvolvem jogos só para a PlayTable. Porque o nosso modelo de negócios é muito interessante para eles.

Alessandra Ogeda – Por que o modelo de negócios da Playmove interesse para estes estúdios?

Marlon Souza – O nosso valor agregado de software é muito grande. Nós fazemos todo um trabalho de divulgação e de comercialização. Se ele coloca um jogo na AppleStore, por exemplo, hoje, ele tem que investir milhares de Reais para ser conhecido para começar a ter algum tipo de retorno e para ganhar centavos durante um longo período até que ele venda muito. Na nossa app store, de imediato, se ele vender uma licença ele ganha R$ 75. Ele não precisa de investimento nenhum além daquele para desenvolver o jogo. Ele desenvolve o jogo e se a gente vender uma licença ele já ganha R$ 75.

Alessandra Ogeda – O desenvolvedor vai ganhando para cada licença vendida este valor?

Marlon Souza – Ele vai ganhando por licença. Então tem parceiro nosso que já vendeu 300 ou 500 licenças de jogos dele. Então ele começa a ter uma rentabilidade muito interessante. Ele faz o desenvolvimento do jogo muito rápido, sem falar da possibilidade de ele ter um volume de vendas grande em um edital, que acontece por uma prefeitura, uma venda corporativa, uma rede de escola para quem a gente vende e ele pode vender 30, 40 ou 50 licenças de uma vez só. E à medida que a gente vai aumentando o volume de mesas, esse jogo é sempre uma novidade. Porque quem compra uma PlayTable está interessado em sair catando o que tem de jogos. E quando ele compra um iPhone, ele já tem 1 bilhão de alternativas, então a concorrência é desleal para quem desenvolve software. Além de ser também uma questão social. O nosso ecossistema de jogos trabalha com jogos educativos, então o desenvolvedor de jogos tem um prazer além de tudo ainda de estar trabalhando ainda com o desenvolvimento de crianças e o desenvolvimento infantil. Com temas específicos, como musicalização, dislexia, trabalho com crianças com síndrome de Down, com ensino de português, de matemática e de geografia, enfim, eles tem um mundo para explorar de temas. Porque o que a gente tem como prioridade é o que jogo tem que ser divertido.

Alessandra Ogeda – Além de educativo, ele tem que ser atrativo para a criança, correto?

Marlon Souza – A primeira coisa que a gente fala para o parceiro, quando ele pergunta “Ah, mas que jogo eu vou desenvolver”, é sobre qual é o jogo mais divertido que ele conhece. Pensa nesse jogo e coloca um tema educacional. A gente não quer que seja um jogo chato. Não é porque ele é educacional que ele tem que ser chato. Então primeiro ele tem que pensar na mecânica, qual é a mecânica mais divertida para ensinar o que ele quer ensinar. Pode ser um “power defense”, pode ser um “runner”, ele vai pensar nas dinâmicas mais legais e vai colocar o conteúdo educacional lá dentro.

Alessandra Ogeda – Quantas unidades da PlayTable já foram vendidas nestes três anos de empresa? O principal público de vocês continua sendo escolas ou vocês tem um público diversificado?

Marlon Souza – Até o final de 2016 nós tínhamos 3 mil PlayTables vendidas no total. Pretendíamos fechar o ano passado com 5 mil unidades. Nós vendemos 700 unidades no ano de 2014, vendemos 1,2 mil unidades em 2015, e esperávamos vender pelo menos 3 mil unidades em 2016. Não conseguimos. Porque o cenário econômico, inclusive com muitas empresas fechando, nós só conseguimos nos manter. Então mantivemos o mesmo faturamento de 2015, a gente conseguiu vender mais 1 mil e poucas unidades da PlayTable em 2016, mas a gente fez uma coisa muito importante dentro do nosso cenário. A gente fez uma inversão no nosso fluxo de venda.

Alessandra Ogeda – De que forma vocês fizeram isso?

Marlon Souza – Até 2015 a grande venda que fizemos foi pública. Então a gente conseguiu, em 2014, fazer quase 90% de vendas para o mercado público. A gente vendeu para Mossoró, para Fraiburgo, para vários municípios Brasil afora. Em 2015 esse cenário se repetiu. Um pouco menor (perfil de vendas públicas), mas se repetiu. A gente teve 70% das nossas vendas públicas em 2015. Quando eu falo públicas, são vendas através de revendedores. A gente não vende para órgãos públicos diretamente. A gente vende o produto para o distribuidor e ele participa dos editais que são abertos para comprar PlayTable e se ele ganhar ele vende. Em 2016 a gente inverteu isso. A gente vendeu 70% para o mercado privado. Então a gente fez o mesmo número de 2015 só que a gente vendeu para o mercado privado. Isso nos deu uma visibilidade muito maior.

Alessandra Ogeda – Quem é o público que comprou e que está comprando no mercado privado?

Marlon Souza – A gente dividiu em vários segmentos diferentes. Temos, obviamente, o segmento educacional, que é o primeiro. Então a gente vende para rede de escolas, para escolas privadas, para escolinha… porque nós atendemos a crianças de três a 10 anos de idade. Então você vai pegar desde uma escolinha que tem só a educação infantil, só o pré-escolar, que se interessa de comprar a PlayTable. Ela tem um conjunto de jogos hoje voltado para esse público de três a seis anos. Pode ser desde uma escolinha individual até uma rede de escolas. Por exemplo, a Rede Adventista comprou PlayTable com a gente em Manaus, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná, porque a rede está começando a colocar PlayTables em todas as suas unidades. Então a gente pode atender desde uma escolinha até uma rede de escolas. Dentro do segmento educacional também temos outro segmento que interessa bastante que é o de inclusão nas escolas. A gente tem uma quantidade muito grande de crianças hoje com deficiência e que não tem o suporte adequado nas escolas, até porque não tem equipamentos adequados para eles. A PlayTable vei suprir essa demanda. Hoje nós temos vários jogos dentro da PlayTable que trabalham vários aspectos cognitivos e que auxiliam no trabalho com estas crianças.

Alessandra Ogeda – Que tipo de jogos são desenvolvidos para este público?

Marlon Souza – Você pode trabalhar a coordenação motora, memorização, a atenção, a socialização, vários itens, até pela questão da PlayTable ser coletiva. Uma criança, por exemplo, autista, ela tem muita dificuldade de interagir em qualquer tipo de atividade que é feita na sala de aula. Na PlayTable ela quer brincar, só que enquanto ela está brincando, ela está compartilhando o que ela está brincando com as outras crianças, mesmo que ela não queira, mas a mesa é grande para o tamanho dela. Então ela aprende a socializar, a compartilhar o que ela está fazendo. A gente tem um caso muito emblemático de uma criança de Fraiburgo da rede pública que foi diagnosticada com um grau de autismo tão grande que ela tinha 95% de chance de nunca ser alfabetizada. A menina tinha 10 anos e nunca tinha aprendido uma palavra, não conseguia evoluir. A escola começou a fazer um trabalho com ela unindo PlayTable e outras dinâmicas de socialização e de trabalho, e em seis meses essa criança estava completamente alfabetizada e brincando na PlayTable com outras crianças. Essa criança é um emblema para a gente porque o professor descobriu como usar a PlayTable para reverter um caso que parecia impossível. Então dentro do segmento educacional a área de inclusão é fortíssima para o nosso trabalho.

Alessandra Ogeda – Quais são os outros perfis de clientes que vocês atendem no setor privado?

Marlon Souza – Entramos também na área de saúde. Então você vai ter psicopedagogos, fonoaudiólogos, outros tipos de terapeutas que também fazem uso da PlayTable ou nos seus consultórios, ou nas próprias casas das crianças. Você vai ter clínicas e hospitais que colocam a PlayTable. O Hospital Santo Antônio de Blumenau tem. A rede D’Or de São Paulo tem. Dentro da área de interação infantil, os centros de pediatria, você tem a PlayTable lá para as crianças brincarem e para fazerem reforço escolar enquanto elas estão internadas. Para trabalhar alfabetização, matemática e tudo o mais enquanto elas estão lá em tratamento. Algumas crianças com câncer, outras com doenças crônicas. Então a PlayTable tem algumas características que interessam muito para os hospitais, como ela ser de fácil higiene. Você pode passar um álcool e está limpo. Não tem nada que vá na boca para a criança transmitir doença de uma para a outra. Ela é praticamente inquebrável. Então são características que interessam para o hospital. Isso estou falando só o foco em educação e saúde.

Alessandra Ogeda – Além destes dois focos, quais são os outros que vocês já começaram a atender?

Marlon Souza – A gente resgatou uma ideia da PlayTable lá de 2012: ela serve muito bem para entretenimento. Ela continua sendo um excelente brinquedo de entretenimento, só que com jogos educativos. Então a gente está vendendo muito para buffet infantil, para parques. A gente vendeu para a rede Movida, locadora de automóveis. Todas as lojas da Movida estão colocando PlayTable na sua área de espera. Estamos vendendo um monte de PlayTable porque as pessoas vão lá, os filhos ficam brincando na PlayTable e depois que alugam um carro, não conseguem mais ir embora e acabam perguntando como comprar a PlayTable. A gente está resgatando aquela ideia de quem tem espaços públicos em que a criança não é o foco, como uma locadora de automóveis ou uma concessionária de carros mas em que elas estão presentes, então esse lugar tem que oferecer algum tipo de entretenimento para estas crianças.

Alessandra Ogeda – E eles percebem que é melhor do que colocar um videogame, por exemplo.

Marlon Souza – É melhor que colocar um videogame porque nos consoles os jogos demoram muito tempo, a criança vai ter que aprender como jogar. Na PlayTable temos jogos casuais, jogos que são rápidos, em que podem jogar várias crianças ao mesmo tempo, que a criança dá um toque e já sabe como joga, então é um outro tipo de objetivo e de tratamento para a criança. Então, com isso, a gente abriu o leque e conseguiu inverter o cenário de 2015 público versus privado para esse ano ter privado versus público. Então a gente conseguiu superar toda a dificuldade política e financeira que nos impactou. Se você pegar que o governo federal não repassou verba nenhuma para a educação praticamente no ano passado, os Estados estão quebrados, os municípios estavam trocando os prefeitos, então 2016 foi um ano terrível para vender para o mercado público. Então a gente reverteu. Mas esse ano a gente já espera retomar tudo o que a gente não conseguiu alcançar em 2016.

Alessandra Ogeda – Você acredita que este ano o setor público voltará a ter a maior parcela das vendas ou vocês terão um equilíbrio entre os setores público e privado?

Marlon Souza – Acho que esse vai ser o ano do equilíbrio porque este ano a gente já formou um público no segmento privado. Então a gente viu por janeiro e fevereiro que a gente continua fazendo um bom volume de vendas no segmento privado, mas o segmento público começou a reaquecer. A gente já tem prefeituras colocando editais. Um revendedor nosso acabou de ganhar um edital e já vamos começar a entregar as primeiras mesas em Governador Celso Ramos. A gente tem vários municípios do nosso Estado e do Brasil inteiro colocando editais para comprar PlayTable, então a gente já começa a ter um cenário reaquecendo. Então eu acho que o cenário público vai reestabelecer o movimento de 2015 e o cenário privado vai manter o movimento de 2016. Então a gente planeja dobrar de faturamento neste ano porque a gente vai conseguir atingir a meta dos dois segmentos.

Alessandra Ogeda – A expectativa de vocês em 2017 é fazer o número que não conseguiram em 2016, de vender 3 mil PlayTables no ano?

Marlon Souza – Sim, queremos trabalhar com 3 mil PlayTables este ano, pelo menos. Isso de mercado interno. Eu nem estou traçando expectativa para o mercado internacional ainda porque é um trabalho que a gente está começando. Apesar das perspectivas serem muito boas, pelos contatos que a gente está fazendo, mas a gente ainda não está computando dentro da nossa meta deste ano a venda internacional.

Alessandra Ogeda – Falando em mercado internacional, a Playmove participou neste ano de dois grandes eventos nos Estados Unidos e na Alemanha. O movimento de vocês é de internacionalização?

Marlon Souza – Esse era um objetivo nosso já. Quando começamos, acreditávamos que esse era um produto para o mercado internacional também. Tínhamos, obviamente, já sondado o mercado internacional. Sabíamos que algumas empresas faziam mesas digitais mas sem o conceito que estávamos entregando deste ecossistema todo. Então sabíamos que era um mercado em que a gente podia competir. Obviamente que a gente espera ir para o mercado internacional quando a empresa ganhar mais corpo. Nós ainda, querendo ou não, somos uma empresa de apenas três anos. Desde que a ideia surgiu, quatro anos. Mas a gente ainda não tem o know how de uma empresa de 20 anos ou de 15 anos e que às vezes tem dificuldade de ir para o mercado internacional. Mas nós temos a ousadia que uma startup precisa. Então nós estávamos imaginando, sei lá, depois do quinto ano que poderíamos ir para o mercado internacional, talvez nesse meio tempo entre cinco e 10 anos, mas também sabíamos que temos um timing. A gente precisa acelerar algumas coisas porque daqui a pouco surgem concorrentes fortes lá fora.

Alessandra Ogeda – Então vocês decidiram antecipar esse processo de projetar a empresa fora do país?

Marlon Souza – No ano passado, com essa crise que aconteceu… dizem que nas crises sempre estão os melhores momentos para as oportunidades, quando a gente tem que olhar para os dois lados. A gente olhou para os dois lados. Olhamos para o mercado privado no Brasil. Fizemos um trabalho de montar um time interno de vendas diretas e montar um time de representantes para atender a esse mercado privado e olhamos para o mercado internacional. A gente começou a sondar empresas que pudessem trabalhar conosco lá fora. A gente buscou parceiros de desenvolvimento de jogos lá fora, a gente começou a adequar o nosso produto para o mercado internacional, porque tem regras, exigências, especialmente porque a gente está lidando com um produto voltado para a criança, um produto que é eletrônico. Então a gente tem uma série de regulamentações que a gente precisa seguir.

Alessandra Ogeda – Para dar este passo de exportar para fora do país antes vocês tem uma série de normas de diferentes países que precisam atender?

Marlon Souza – Sim. A gente precisa atender para ter o selo da Comunidade Europeia, por exemplo. Para poder ter o selo de exportação para os Estados Unidos, assim como da Arábia (Saudita), que a gente já está atendendo. Então a gente tem que se adequar. E esse foi um dos motivos da gente acelerar o desenvolvimento da PlayTable Série 2, que a gente vai lançar, que é justamente para atender a algumas questões técnicas que a gente precisava resolver no produto. Não que no mercado brasileiro não tenha (um pacote de exigências). A gente poderia ter a certificação do Inmetro porque a gente atende a todas as regras para trabalhar com segurança com as crianças, mas obviamente que mercados como Estados Unidos e União Europeia são mais exigentes. Então a gente tem que tomar ainda mais medidas.

Alessandra Ogeda – Então a Série 2 da PlayTable já está adequada para estes mercados fora do país?

Marlon Souza – Já, ela já está adequada. Este modelo que estamos lançando está 100% adequado. Inclusive nos próximos meses a gente já está mandando alguns modelos para certificação nestes países. Estamos enviando amostras para ser certificado na França e para os Estados Unidos. Então a gente já fez as medidas que precisávamos fazer para isso. No ano passado começamos a olhar para este mercado, vimos o que precisava para fazer em termos de hardware, vimos o que precisávamos fazer em termos de comércio mesmo bilateral e começamos a aprontar. Muito em função também do dólar estar em um patamar alto, o que facilita a comercialização. Isso acabou acontecendo mais rápido do que nós imaginávamos. Quando começamos a olhar 2016 a meta era começar a fazer alguma venda (para fora do país) em 2018, mas aí no final de 2016 nós fomos surpreendidos por esta feira de Nuremberg. Nossa intenção era participar da feira, mas nós estávamos ainda sondando ir para lá este ano para conhecer e em 2018 queríamos expor na feira, mas para a nossa surpresa nós fomos escolhidos um dos 30 brinquedos mais inovadores do mundo em 2016 por essa curadoria da feira.

Alessandra Ogeda – O que esse reconhecimento significou para vocês?

Marlon Souza – Eles nos mandaram um convite para participar de uma área específica da feira, que é chamada Tech2Play, que é uma área voltada para estes brinquedos de inovação. Participamos da feira em fevereiro, mas fomos escolhidos como um dos mais inovadores na fase de curadoria. Em novembro do ano passado nós tivemos a notícia de que nós estávamos qualificados para participar da feira de Nuremberg nesta área Tech2Play. Daí, claro, eles nos fazem o convite, nós temos que dizer que queremos participar, tivemos que enviar as mesas, tivemos que ter um representante e tudo o mais. Então a gente providenciou todo esse processo para participar da feira. Tudo isso acabou adiantando o nosso processo, porque como a gente acabou sendo selecionado nessa curadoria e fomos para a feira, a gente já teve que fechar os contratos que a gente estava negociando lá na Europa para ter representantes lá, a gente já começou a receber, através da feira, contato de compradores que querem revender os nosso produtos na Europa, então a gente já começou a girar a máquina da exportação muito antes do que a gente imaginava.

Alessandra Ogeda – Vocês anteciparam em pelo menos um ano esse processo, correto?

Marlon Souza – Sim, um ano antes, pelo menos. Então a gente está agora correndo atrás para fazer as coisas todas acontecerem como a gente imagina para atender a esse mercado europeu. Nesse meio tempo a gente também já fechou um contrato com um distribuidor nos Estados Unidos e que está fazendo um trabalho para a gente lá de prospecção.

Alessandra Ogeda – Esse contrato com um distribuidor nos Estados Unidos vocês fecharam em 2017 também?

Marlon Souza – Foi no final do ano passado. Veio através de uma indicação, porque nós participamos, no ano passado, do Promessas, da Endeavor. Nós fomos uma das empresas selecionadas para o ano de 2016, e aí participamos da mentoria deles. Dentro deste processo a gente falou que queria fazer a internacionalização e que nos prepararmos para isso era uma das nossas metas para 2017. E aí a própria Endeavor nos recomendou uma empresa dos Estados Unidos que faz esse trabalho de levar empresas brasileiras para lá e a gente começou a fazer um trabalho com eles, que se interessaram demais pelo nosso produto e já nos indicaram uma outra empresa que também desenvolve jogos educativos lá mas que não tem hardware. A gente já fez uma parceria e já começou a construir um negócio em que estes caras se tornaram os nossos revendedores. Então a coisa já aconteceu muito rápido e hoje já temos negócios em andamento para serem fechados nos Estados Unidos. Falando ainda da feira em Nuremberg, fomos a única empresa brasileira presentes no evento deste ano.

Alessandra Ogeda – A Playmove foi a única brasileira no evento e considerada uma das mais inovadoras do mundo.

Marlon Souza – Mas me surpreendeu mais sermos os únicos do Brasil do que ser um dos 30 (mais inovadores). Porque pensei que deveriam ir outras grandes empresas do país, como a Estrela, mas não, somente nós estávamos lá representando o Brasil.

Alessandra Ogeda – Os 30 jogos que a empresa tem atualmente já são preparados para o mercado externo, desenvolvidos em outros idiomas, ou isso é algo que vocês vão trabalhar agora?

Marlon Souza – Sim, nos preparamos para o mercado externo. No ano passado, quando nós começamos a pensar em internacionalização, a gente começou a fazer um trabalho, o que nos parecia mais óbvio, pela América Latina. Então nós fizemos alguns contatos no Chile, no Uruguai e no México. No Uruguai houve um interesse muito grande em a gente fechar negócio lá. Inclusive eu fui ao Uruguai e o meu sócio também para uma reunião com o governo de Montevidéo e com o governo do Uruguai e estávamos bem avançados para fechar uma negociação com eles e acabou que o revendedor que estava nos representando lá acabou saindo do país e aí o negócio ficou meio perdido durante um período. Nesse meio tempo surgiram as oportunidades para Estados Unidos e Europa e a gente não retomou (com o Uruguai) mais. Mas hoje a gente tem um trabalho já feito no Uruguai, a gente tem um trabalho feito no Chile, onde temos uma pessoa lá atuando para a gente, e a gente já começou um trabalho no México também. Por isso a gente já começou a pensar e a se preparar para internacionalizar.

Alessandra Ogeda – Está fazendo parte deste processo ter os jogos em outros idiomas?

Marlon Souza – Começamos pelo espanhol. Ano passado já tínhamos cerca de 15 jogos em espanhol. E com toda essa questão da feira nos Estados Unidos a gente trabalhou, do final do ano passado para cá, na internacionalização para o inglês. Então a gente tem metade dos nossos jogos já disponível em inglês e para o espanhol. E a gente deve migrar todos os jogos (para estes idiomas) no primeiro semestre ainda e esse já é um requisito para os parceiros que os jogos já venham disponíveis em espanhol e em inglês. Além disso, vamos começar o inverso também. Porque a gente está fechando contrato com parceiros de fora e, por exemplo, essa empresa dos Estados Unidos vai mandar para nós todos os jogos em inglês que já passamos a oferecer no Brasil. Esse é um outro segmento que eu não te falei e que é gigante, de escolas bilíngues e escolas de idiomas que estão nos procurando e querem colocar a PlayTable para trabalhar as disciplinas em inglês com os seus alunos. Então a gente já começa a receber estes conteúdos de fora também até para atender ao mercado interno, não só para vender para fora mas para começar a usar o produto em inglês aqui também.

Alessandra Ogeda – E isso pode acontecer com os jogos desenvolvidos em espanhol e em qualquer outro idioma, não? São opções que agregam à PlayTable e que abrem uma outra frente para vocês.

Marlon Souza – E eu não descarto nenhum idioma. A gente já foi procurado por estúdio de desenvolvimento de jogos da França, que tem jogos em inglês e em francês porque eles já fazem nestes dois idiomas. Uma empresa da Alemanha que faz jogos em alemão e em inglês. Então a gente começa a ter um leque, daqui a pouco, de ter os jogos da PlayTable em vários idiomas diferentes. Nós estamos agora já com uma revenda nos Emirados Árabes, situada em Dubai. Eles, inclusive, devem estar na semana que vem (a semana que passou) para um treinamento e eles também já começaram a falar para a gente fazer em árabe, porque eles vão começar a prospectar vendas lá em árabe.

Alessandra Ogeda – Esta revenda no Emirados Árabes é diferente dos outros contatos que vocês tem fora do país, que são com representantes comerciais?

Marlon Souza – Lá temos um revendedor, como temos em Portugal e nos Estados Unidos também. Quer dizer, eles vão comprar da gente e revender para os seus respectivos mercados. A revenda na Arábia Saudita vai focar em toda a parte da Ásia.

Alessandra Ogeda – Então vocês estão com o formato de revenda em Portugal, nos Estados Unidos e na Arábia Saudita?

Marlon Souza – Na verdade a gente um híbrido. Dependendo o caso, eles vão comprar e revender, mas às vezes eles fecham grandes contratos, como um que a gente está negociando agora com uma grande rede de restaurantes fast food da Ásia através deste revendedor. São 1,5 mil lojas em vários países daquela região, Arábia Saudita, Iraque e tudo o mais, então esse revendedor não vai querer comprar e revender (nesta situação) porque esta é uma negociação em que o preço tem que baixar bastante porque é um grande volume e tudo o mais. Então não vai compensar para ele bitributar. Então o que a gente vai fazer é uma venda para lá e esse cara (revendedor) vai receber uma parte desta venda, uma comissão, a gente está discutindo isso. Então vai depender de cada negócio. Lá fora as oportunidades de grandes negócios com grandes volumes são muito grandes porque são normalmente empresas que atendem a Europa inteira, a Ásia inteira, os Estados Unidos e a América Latina, então os caras sempre compram em grande volume. Então a gente deve ter os dois modelos. Para vendas menores temos estes revendedores que compram e revendem, até pelo estoque que eles mantém lá, e algumas vendas maiores vamos fazer vendas diretas com comissão.

Alessandra Ogeda – Vocês já começaram a exportar ou isso está no horizonte para o curto prazo?

Marlon Souza – Se você considerar venda para cliente final, a gente ainda não fez a primeira, mas a gente já tem mesas nos Estados Unidos, já temos mesas em Portugal, na Alemanha, na África, na Arábia, que são mesas vendidas para estes revendedores e que estão hoje em exposição ou sendo trabalhadas nestes países.

Alessandra Ogeda – Quando vocês fizeram estas primeiras vendas para fora do país para este revendedores?

Marlon Souza – A gente já fez algumas… por exemplo, como a gente ia para esta feira de Nuremberg, a gente já mandou as mesas que ficariam expostas na Alemanha no ano passado. As que estão em Portugal foram no final do ano passado. As para os Estados Unidos, foram duas no final do ano e duas no início deste ano. As da Arábia foram no começo deste ano. As da África são um trabalho de mais tempo. No final de 2015 a gente mandou essa mesa para lá. Foi uma mesa para um trabalho que a gente fez junto a uma ONG, então eles estão fazendo um trabalho de divulgação lá em um dos países mais pobres da África. Aí não é bem uma exportação, porque é um trabalho mais de impacto social junto a essa ONG. Então a gente já tem o produto em alguns lugares do mundo sim. Temos no Chile e no Uruguai também. A gente não fez ainda um carregamento em grande escala. À medida que nós evoluirmos no mercado internacional a gente vai ter que avaliar, e isso já está na nossa pauta, a produção 100% no Brasil ou a produção fora também.

Alessandra Ogeda – Dependendo das vendas, seria mais vantajoso produzir mais perto dos mercados consumidores, correto?

Marlon Souza – A gente não descarta ter uma linha de montagem nos Estados Unidos, ter uma linha de montagem na Ásia, ter uma linha de montagem na Europa daqui a pouco. Porque o nosso produto é muito grande, tem muito valor agregado, então, daqui a pouco, vale a pena a gente vender o software daqui e fazer toda a produção da mesa lá, dependendo do volume que for comprado. Esse vai ser um ano de estudo e de entender como é o cenário, se exporta tudo daqui, se monta lá, se faz parte aqui e parte lá.

Alessandra Ogeda – Se os contratos no Exterior começarem a dar certo, vocês vão escalar a empresa muito rápido. Vocês estão preparados para isso? Podem inclusive, para isso, mudar a forma de produção?

Marlon Souza – Se você pegar hoje a Samsung, que produz em cinco, seis, dez lugares no mundo; a Apple, produz inclusive no Brasil o iPad e o restante tem produção na Ásia, na China, na África, em vários lugares. Então o hardware, em si, chega o momento da escala (de produção) em que ele se torna commodity. Nós estamos cientes disso. Vai chegar um momento da nossa escala… talvez a gente nunca chegue na escala de uma Apple, mas em uma escala que já seja interessante para a gente, e o nosso hardware vai virar commodity. A gente vai ter um produto de linha com uma característica X que usa o componente tal e que tem que ser montado desse jeito aqui ou em qualquer lugar do mundo. Então a gente está ciente que isso pode acontecer e que se isso acontecer, vai reforçar mais ainda o que a gente preparou que é ter todo o ecossistema pronto para este hardware. O que vai importar lá no final das contas é o software que a gente vai embarcar neste hardware. Hoje, se você pegar um iPhone pelo iPhone, ele não é nada. Ele é até inferior ao que é um Samsung. O que faz o iPhone diferente é todo o ecossistema dele de integração com iCloud, de funcionar no Mac igual que funciona no iOS e por aí vai. É o que a gente está construindo com o nosso ecossistema. Então se a gente tiver que produzir a PlayTable 100% na China e vir pronta e a gente só fizer a ativação colocando o nosso software, para nós vai funcionar do mesmo jeito. A gente estará exportando o nosso software. Hoje, inclusive, boa parte da nossa receita vem do software.

Alessandra Ogeda – O quanto o software e os jogos já representam da receita de vocês?

Marlon Souza – Eu considero o software, esse sistema de gestão que a gente construiu, que a gente cobra a licença dele, assim como todos os jogos que a gente vai colocar. Então imagina que daqui a pouco, e eu estou colocando o hipotético aqui, uma PlayTable custa R$ 5 mil, R$ 2,5 mil é o custo de hardware e os outros R$ 2,5 mil é software. Daqui a pouco, com o volume de jogos que a gente tem, o cliente pode ter comprado tanto jogo para a PlayTable que ele gastou R$ 20 mil, aí os R$ 2,5 mil do hardware vai ser quase 10% do valor total que aquela PlayTable nos vendeu. Ou seja, a gente exportou R$ 18 mil em software e produziu R$ 2,5 mil na China de hardware. Esse é que é o ponto. A gente está muito mais interessado no ecossistema do que no hardware em si. Hoje o hardware é fundamental para entregar a qualidade que a gente quer entregar, e é um diferencial para a gente, mas ele pode se tornar commodity daqui a pouco. Então a gente está preparado para isso.

Alessandra Ogeda – Além de vocês terem parcerias com desenvolvedores de jogos, vocês já tem mapeados no Exterior possíveis parceiros para produzir as PlayTables fora do país?

Marlon Souza – Hoje a gente já importa alguns componentes que não tem similar no Brasil e que precisamos importar. A gente tem uma rede de fornecedores em vários lugares do mundo que a gente pode acionar a qualquer momento para produzir o hardware que a gente quiser. Eu estou discutindo com fornecedor da China desde 2010 quando eu comecei a trabalhar com esse tipo de tecnologia dentro da Morphy. Eu já importava frame de toque, sensor de presença, importava tudo que é coisa e conheço muita gente, muitos fornecedores. Tenho uma rede grande. Então a gente já está preparado para essa internacionalização. E falando em escala, a gente já vem se preparando desde que a gente era uma startup de três pessoas. A gente sempre deixou claro que a empresa precisa das pessoas, mas que ela tem que ter a sua estrutura independente das pessoas. Então hoje nós temos um departamento financeiro, um departamento de RH, um departamento de compras, um departamento de logística, a produção, o suporte, um comercial, o marketing.

Alessandra Ogeda – Todos estes departamentos com funções bem direcionadas e definidas.

Marlon Souza – Mesmo que seja um departamento de uma única pessoa, ela tem essa função muito clara. Pode ser que, daqui a pouco, a gente tenha três pessoas em um departamento, daqui a pouco tenha cinco, daqui a pouco tenha 50. Essas pessoas estão sendo preparadas para ou serem os líderes ou lidarem com o crescimento desse departamento. Isso tem muito sentido à medida que a gente foi adquirindo essa experiência com outros negócios. Eu tenho 44 anos já, o meu sócio tem 43 anos. Eu já tenho negócios desde os 18 anos de idade, já passei por grandes corporações. Já trabalhei na Bunge, na Ambev, em várias outras grandes corporações. Então eu sei como funcionam os dois lados. Como funciona uma startup, que eu já fiz várias vezes, e eu sei como funciona uma grande empresa, como funcionam os clientes, os investidores, até por isso que a gente não recebeu investimento até hoje. Porque eu sei o que eles vão me exigir quando eles vierem com o investimento.

Alessandra Ogeda – Sabes bem o tamanho da fatia da empresa que os investidores vão querer.

Marlon Souza – É. Então enquanto eu puder ter liberdade para crescer da maneira que eu quero crescer, fomos crescendo. Acho que vai chegar um momento que, talvez para estes passos que a gente queira dar, vai ser importante ter alguém que possa bancar esse crescimento. Não descarto e a gente já conversou, em diferentes momentos da empresa, com investidores. Quando a gente foi para a Campus Party com a ideia da PlayTable, choveu propostas, investidores-anjo, todo mundo queria comprar a PlayTable. Eu disse “Não, espera aí. Quando a gente se tornar um pouquinho maior, a gente volta a conversar”. Isso porque eu não tinha 20 anos. Se eu tivesse 20 anos, talvez eu teria vendido lá em 2014. Porque para mim não fazia sentido ser quase funcionário de alguém que botou dinheiro no meu negócio. Como eu não tinha mais 20 anos, eu sabia que ia chegar um momento em que ia fazer sentido uma negociação mais parruda, mais téte-à-téte. Do tipo “Olha, o meu negócio agora tem o porte que eu imagino que ele pode ter e agora a gente pode negociar”. Não foi fácil, ao longo destes três anos. Porque produzir hardware no Brasil do jeito que a gente está fazendo, com a qualidade com que a gente está fazendo e ainda embarcando software, desenvolvendo jogos e tudo o mais, é um desafio muito grande. E a gente vem reinvestindo. Colocamos todos os nossos investimentos, meu e do Jean, nessa empresa. Reinvestimos todo o dinheiro que entra nela porque a gente sabe aonde ela pode chegar.

Alessandra Ogeda – Quanto custa uma PlayTable? Todas as mesas são produzidas ainda em Blumenau ou vocês já têm alguma produção em outro local?

Marlon Souza – Vale a pena até falar de um cenário. A gente começou esse produto em 2014 com um dólar a R$ 2. Depois, conforme fomos avançando no projeto, o dólar foi aumentando e chegamos a ter um dólar por R$ 4 e sem podermos mexer no preço, praticamente. O preço da PlayTable está um pouco estável. Inclusive ele baixou. Quando a gente lançou o produto, uma PlayTable com três aplicativos custava R$ 6 mil a R$ 7 mil. Hoje ela custa na faixa de R$ 4 mil.

Alessandra Ogeda – Imagino que influenciou nessa queda o fato da tecnologia também ter ficado mais barata, não?

Marlon Souza – Sim. Mas ainda é (o preço) muito alto. A gente gostaria de vender o produto a R$ 1 mil ou R$ 800. Mas, obviamente, a gente está vivendo em um país onde a carga tributária é um absurdo, onde importar qualquer coisa é impossível. No ano passado a gente ficou praticamente três meses sem conseguir entregar PlayTable porque a gente fez uma importação gigante do principal componente que vai na PlayTable que é o frame de toque e a nossa carga inteira ficou presa no porto durante a greve dos auditores fiscais. A gente ficou sem conseguir tirar. Fizemos mais um pedido, chegou uma quantidade pequena para a gente testar, via aérea, e fizemos um segundo pedido, já tomando prejuízo daquele que tinha ficado no porto. Esse segundo chegou e também ficou parado no porto. Então ficamos com duas remessas de frame parados durante um baita tempo. Então isso tudo dificulta e a gente não consegue reduzir preço hoje, mas a gente gostaria de fazer isso. Hoje a gente vende com um leque de jogos interessantes entre R$ 5 mil e R$ 5,5 mil.

Alessandra Ogeda – Quantos jogos fazem parte da PlayTable nesta faixa de preços?

Marlon Souza – Hoje nós temos 30 jogos. Então a gente parte de um set de cinco a oito jogos, que é o número ideal para você começar a usar a PlayTable. Estabelecimentos de entretenimento ou mesmo escolinhas menores começam com uma faixa de oito jogos, o que daria mais ou menos R$ 5,5 mil.

Alessandra Ogeda – A produção atualmente ainda é toda feita na empresa?

Marlon Souza – A gente faz tudo aqui. Claro, hoje a gente tem uma gama de fornecedores com quem a gente tem contrato, então algumas coisas são terceirizadas, vem pré-prontas. Mas a montagem final do produto é feita aqui (na sede em Blumenau). A gente recebe componentes da China, componentes de outros fornecedores, junta esses componentes na linha de produção que é na fábrica. Hoje a gente está em uma estrutura que não é própria, mas é nossa, separada da outra empresa do Jean. Temos um parque fabril de 800 m2 mais ou menos onde nós temos o nosso time de desenvolvimento, a parte administrativa, comercial e tudo o mais e a parte de baixo é a fábrica. A gente tem uma linha de produção, estoque, componentes, tudo aqui.

Alessandra Ogeda – Além das estratégias que você já citou para crescer dentro e fora do país, quais serão os próximos passos da empresa? Vocês devem participar de mais eventos neste ano?

Marlon Souza – Em maio a gente tem um conjunto grande de feiras que a gente participa. A gente está na feira Educar, a maior feira de educação do país; na Expo Parques, que é uma feira justamente voltada para parques, buffet infantil, festas e o setor de entretenimento; a gente deve estar na feira Hospitalar, voltada para a área de saúde; devemos participar de uma feira de reabilitação, que acontece em maio. Todas essas feiras acontecem nesse primeiro semestre. A gente tem tradicionalmente participado destas feiras. A gente já tem algumas definidas para o segundo semestre também, mas que não estão ainda 100% fechadas. Estamos planejando, para o ano que vem, estar efetivamente na feira de Nuremberg com estande próprio e participando de uma maneira um pouco mais efetiva. A gente tem essa internacionalização, que é inevitável, é a moeda da vez que eu estou trabalhando, porque esta é a minha área na empresa. O Jean está trabalhando bem forte na parte de retomada do segmento público (no Brasil), que é um dos nossos focos. A gente está ampliando o nosso leque de revendedores hoje.

Alessandra Ogeda – Em que regiões vocês sentem necessidade de ampliar mais esta presença dos revendedores?

Marlon Souza – Temos revendedores em praticamente todos os Estados, mas ainda tem algumas regiões em que a gente está um pouco mais fraco, como a região Centro-Oeste, Mato Grosso, Goiás, algumas regiões em que a gente está fazendo um trabalho mais forte agora. A gente está abrindo para representantes para o segmento privado no Brasil inteiro. Esse é um trabalho que a gente está fazendo bem forte também para este atendimento mais voltado para escolas privadas. No final do ano passado a gente lançou a nossa App Store, que é o nosso site que vende os jogos da PlayTable. A gente está finalizando a integração entre a nossa App Store e a PlayTable diretamente para evitar o contato humano nessa venda.

Alessandra Ogeda – O que mudaria no processo de venda dos jogos em relação ao que é feito atualmente?

Marlon Souza – Hoje a venda é feita, passa por um departamento nosso de suporte que valida essa venda e libera a instalação do jogo na PlayTable. A gente quer fazer isso tudo automático para que o cliente pague, passe o cartão e o jogo já começa a ser instalado automaticamente na PlayTable. Estamos trabalhando nisso também. Tem várias melhorias no software que a gente está desenvolvendo. Estamos com as parcerias e o projeto de chegar a 100 jogos pelo menos. Para isso estamos trabalhando muito forte na parte de parcerias. E nós temos outros tipos de conteúdo dentro da PlayTable sem ser os jogos necessariamente. A gente tem um aplicativo chamado Contador de Histórias no qual a gente pega livros e faz a narração deles. Então é uma contação de histórias como nos velhos tempos mesmo. Vários dos nossos livros são da região, com autores daqui, e que eles próprios narraram os seus livros. Eles gravaram a contação da história de seus livros, que são animados e com interação e tudo o mais. A gente tem 70 livros já e queremos chegar a 200 títulos este ano, pelo menos. A gente fechou contrato com a TodoLivro, a Ciranda Cultural, estamos fechando com a Melhoramentos, tem várias editoras que a gente está negociando.

Alessandra Ogeda – Esses 70 livros que tu comentaste já estão na PlayTable, já podem ser acessados?

Marlon Souza – Tem 30 que estão disponíveis e tem 30 que já estão prontos e que devem entrar até maio com o lançamento que vamos fazer para a feira. A gente está negociando também livros internacionais para ter em outros idiomas também. Estamos lançando um aplicativo de vídeo e de música. Vamos ter dois aplicativos diferentes que vão trabalhar músicas infantis e vídeos infantis. A gente também vai começar a comercializar conteúdo de vídeo e de música dentro da PlayTable. Estamos começando a trabalhar com um esquema que a gente chama de private label, que é a gente desenvolver conteúdo específico de determinadas marcas, redes de ensino e tudo o mais. Estamos começando a negociar estes contratos. Enfim, tem uma montoeira de coisas, um leque grande para este ano.

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70% mais barata, casa foi construída por impressora 3D em apenas 24 horas

Você tem dúvidas de que a tecnologia vai mudar o mundo? Então olhe essa casa aqui, construída em menos de 24 horas e por apenas US$ 10 mil – muito mais barato do que o habitual. Na Rússia, local onde ela foi construída, uma casa similar sai por cerca de US$ 33 mil, ou seja, há uma economia de 70% aí.

Esta casa tem 37 metros quadrados e foi quase totalmente impressa com uma impressora 3D, apenas o acabamento (janelas e pintura) foram adicionadas por pessoas. “Queremos mudar a percepção do público que construção não pode ser rápido, ecológica, eficiente e confiável ao mesmo tempo”, disse o fundador da companhia Apis Cor, Nikita Chen-yun-tai.

A casa ficou sensacional e mostra como novas tecnologias podem mudar tudo que fazemos atualmente. O StartSe quer participar desta revolução através de cursos e eventos para capacitar empreendedores para fazerem coisas tão sensacionais como essas. Um deles é o Startup de A a Z, voltado para ensinar empreendedores a evitarem as primeiras dores do começo de uma startup.

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70% mais barata, casa foi construída por impressora 3D em apenas 24 horas

Empreendedora brasileira faz pele artificial e pode revolucionar indústrias

Por melhores que sejam as startups brasileiras, elas raramente envolvem tecnologia pesada. Elas não são de robótica, biomedicina ou outro termo mais complicado. Inclusive, encontrar e atrair talentos para as startups destes segmentos por aqui é bem difícil.

Mas há uma empresa, de uma brasileira, entre as mais promissoras de biotech do mundo, a OneSkin, que fabrica pele artificial para utilização em testes da indústria de cosméticos e farmacêutica. Só tem um detalhe: a companhia – fundada por Carol Reis – não fica no Brasil. Fica no Vale do Silício.

Mas foi aqui no Brasil que a mineira se formou. “Eu tenho uma formação bem acadêmica, fiz doutorado em bioquímica. Desde que eu escolhi o curso era para buscar uma medicina aplicada, com pesquisas para, lá na frente, para chegar no mercado”, afirma Carol Reis, fundadora da OneSkin.

Sua experiência empreendedora começou aqui, inclusive – quando ela estava terminando o doutorado. “No douturado comecei a trabalhar com células tronco. No final do doutorado eu já tentava interagir com empreendedorismo, fiz parte de empresa junior. E no final do doutorado eu conversei com uma colega, chegamos em um projeto e fomos buscar formas de tirar essa ideia do papel”, destaca.

Aqui no Brasil, ela tentou empreender procurando um programa governamental que pudesse apoiá-la. “Procuramos editais para achar financiamento, até encontrar o edital do Seed, que escolhia projetos ainda em ideia. E fomos aceitas. Foi uma surpresa ser selecionado, pois todas escolhidas eram de TI. Éramos as únicas de biotech”, conta.

Elas tinham um plano inicial, que se difere da empresa atual – o objetivo era suprir uma indústria gigantesca. “Nossa ideia inicial era produzir diferentes tipos de células humanas a partir de células troncos. E queríamos vender essas células para industrias que precisassem testar novos medicamentos”, destaca.

Contudo, perceberam que talvez não estivessem focando no cliente correto. “No Seed começamos a validar essa ideia. Conseguimos pensar em um modelo de negócios, como entrar no mercado. Mas vimos que a indústria farmacêutica no brasil inova muito pouco. A indústria de cosméticos inovava muito mais e tinha uma pressão para substituir os testes em animais”, afirma Carol.

Montaram uma startup e tentaram empreender no Brasil, mas logo veio o convite para ir para o Vale do Silício. “Logo depois entramos no Startup Brasil e fizemos uma startup chamada Cellseq. Fizemos um demoday em um Startup Week e vieram alguns investidores de fora. Eles me conectaram com um amigo deles que tinham uma aceleradora de Biotech em São Francisco, a IndieBio”, conta a empreendedora.

Uma nova vida empreendedora no Vale do Silício

Logo, Carol percebeu que empreender no Vale do Silício seria melhor, dada a natureza de seu projeto. “Começamos a conversar com o pessoal daqui de São Francisco, com o pessoal focado em biotech. Se a gente conseguisse vir para cá, isso ia ser uma oportunidade para encontrar nosso lugar no mercado de fato. As aceleradoras no Brasil não tinham muita experiência para acelerar uma empresa de Biotech. Aí ainda estão amadurecendo”, destaca.

O interessante é que o programa de aceleração era muito claro, muito focado e tinha um objetivo muito claro: o que ajudou (e muito) para que Carol conseguisse desenvolver algo bacana. “Focamos em um único projeto para essa aceleradora que pudesse formar uma patente no final, e eles selecionaram a gente. Era um recurso muito bom, US$ 250 mil. US$ 200 mil em cash. Era um programa de aceleração muito bom”, afirma.

Uma experiência no Vale

Foi um período duro, mas muito proveitoso para que Carol fizesse grandes progressos na empresa e como profissional também. “Eu não tive nem tempo de adaptação, cheguei na segunda e na terça já começou o programa de aceleração. Foram quatro meses insanos, foi algo que testou meus limites, mas em momento nenhum eu reclamei”, destaca.

O que ela mais ressalta é a mudança de mentalidade que ela teve depois de passar algum tempo no Vale do Silício. “Foi muito aprendizado. Foram quatro meses que geraram experiência por anos. Foi uma mudança de mindset imensa. No primeiro dia, o CEO da aceleradora chamou a gente para falar que nosso projeto tinha potencial para impactar bilhões de pessoas”, afirma.

Ela ficou maravilhada com as pessoas ao seu redor que estavam mudando o mundo com projetos maravilhosos. Mas se deu conta de que ela mesma era uma dessas pessoas que tinham a chance de mudar o mundo. “Vi gente fazer projetos extraordinários. Coisa que te surpreende. E você percebe que teu projeto também é desse nível. Esse é o jeito certo de pensar”, acredita.

Ela ressalta que existe uma diferença de mentalidade gigantesca entre o Brasil e o Vale do Silício: é um dos motivos pelos quais a região transforma o mundo. “No Brasil a gente pensa como fazer a empresa sobreviver, e aqui se pensa como as coisas vão impactar o mundo. É impressionante. A barra é muito grande”, destaca Carol.

Lá se entendeu que projetos que vão ter um impacto social precisam ser financeiramente sustentáveis, ou seja, precisam se tornar um negócio rentável. “Eles querem ter retorno aqui, tem que mostrar resultado toda semana. São programas privados, enquanto no Brasil isso é governamental”, completa.

Por isso, se o negócio não é viável, as empresas morrem e o empreendedor parte para a sua próxima. O que é bem diferente do Brasil. “Se você não tem clientes ou investidores no final de quatro meses, eles determinam que você vai morrer. Em quatro meses, você precisa validar seu projeto”, conta.

O Brasil precisa de uma mudança para começar uma caminhada de desenvolvimento mais agressiva que permita o País a se tornar uma nação desenvolvida. “Isso é uma preparação muito grande. No Brasil a gente vai levando, fica um pouco acomodado. Precisa um pouco mais de um choque de realidade”, afirma.

Adoramos o Vale do Silício e a mentalidade dele. Para ajudar os brasileiros a absorverem essa mentalidade, temos duas iniciativas: o Silicon Valley Learning Experience, que leva brasileiros ao Vale para absorver o que lá tem de melhor. E o Silicon Valley Conference, o maior evento sobre o Vale já feito no Brasil.

Não adianta voltar para o Brasil

Por conta disso, Carol Reis e a OneSkin decidiram que não vão voltar para o Brasil. “Não fazia sentido voltar para o Brasil, ia aumentar muito o risco de a empresa morrer. Aqui já temos networking e dois grandes clientes. Além do mais, hoje eu não penso só no Brasil, hoje eu penso global”, avisa.

A empresa fez grandes avanços nos últimos meses e segue no objetivo de produzir pele artificial. “Acho que estamos no caminho certo, já pivotamos umas três vezes para chegar nessa proposta. Nossa proposta inicial era para reproduzir só a epiderme, e as empresas não estavam interessadas só nisso”, destaca.

Ela ouviu os clientes e determinou que seu produto deveria ser levemente diferente do que ela estava apresentando. “Eles queriam mostrar como o produto deles funcionavam. E aí determinamos que tínhamos que reproduzir a pele completa, a epiderme e a derme. Mas tinha muita gente neste mercado”.

A utilidade de seu produto é gigantesca. “Esse mercado de antienvelhecimento estava crescendo bastante, mas não tinha como provar que o produto estava funcionando, que tinha resultado. A gente viu que tinha como medir a idade da pele através da DNA, e podíamos ver se os produtos estavam funcionando”, destaca.

“O que a gente faz hoje é produzir uma pele e depois envelhecemos a pele, através de testes de stress e podemos testar como os produtos agem na pele depois disso. Essa é a nossa proposta principal, com uma metodologia muito mais precisa que antes”, conta. Essa tecnologia a permite ser muito mais eficaz para testes, eliminando a necessidade de humanos e animais – uma pressão ética que as companhias estão passando no momento.

Além disso, o produto da OneSkin é completo, pois consegue permitir que as empresas de cosméticos façam testes que não eram possíveis, a não ser que fossem feitos com pessoas. “Conseguimos reproduzir peles de diferentes etnias, diferentes idades e podemos avaliar como os produtos funcionam para cada tipo de pele”, destaca.

E claro, Carol tem grandes planos para o futuro – quando vai melhorar ainda mais a disponibilidade da OneSkin, usando tecnologia e inovação. “E queremos criar um machine learning para determinar como cada novo produto vai atuar em cada tipo de pele. Assim a gente traz uma coisa muito nova para este mercado”, termina.

Torcemos para o seu sucesso e entendemos que a OneSkin é uma prova de que startups podem fazer produtos inovadores que podem melhorar indústrias já estabelecidas. É o que acreditamos no StartSe e promovemos no evento Corporate Class, que junta grandes nomes de inovação corporativa para tratar.

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Empreendedora brasileira faz pele artificial e pode revolucionar indústrias